O Andejo Vadio
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"I always wonder why birds choose to stay in the same place when they can fly anywhere on the Earth. Then I ask myself the same question."
(Harun Yahya)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ir ou nao ir? Eis a questao!

Talvez eu tenha sido um pouco apressado ao utilizar o título da postagem passada, afinal ele caberia perfeitamente nessa. Por outro lado, acredito que aquele seria um possível título para pelo menos metade de todas as histórias que conto e que dizem respeito a essa viagem, entao deixemos de lastimar sobre isso por um instante.

Próximo a completar 100 dias de viagem, fato que ocorrerá amanha, sigo me surpreendendo. Diferente do que imaginava, estar 'parado' em uma cidade nao transformou minha vida em uma rotina - na realidade, nao passou nem perto disso - assim, diferente do título, guardo os assuntos relatados na mesma postagem citada acima para um momento mais propício.

Em Buenos Aires há muito trabalho. Algum para mim? Ainda nao sei. Os jornais estao repletos de anúncios, e a internet recheada de oportunidades e eu estou correndo atrás. Espalhei meu currículo pela cidade e pela rede e agora fico na torcida para que o esforço gere resultados. Algo já começou a acontecer, por mais que pouquíssimos dias tenham passado. Já fiz um free de barman em uma balada aquí em Lanús (regiao que estou hospedado na grande Buenos Aires), e amanha tenho uma entrevista para trabalhar de garçom em festas e eventos, porém, nada mais estável e constante tem surgido como opçao.

Nessas andanças todas pude reavivar como é uma cidade grande de fato. Com seus 16 milhoes de habitantes, a capital argentina transpira agito - e se respira poluiçao. Poluiçao essa que é gerada em parte pela imensa quantidade de veículos que tornam o trânsito um caos completo. Caos esse que estimula, inevitavelmente, o uso constante e irritante das buzinas. Buzinas essas que sao a marca registrada dos portenhos - no interior do país, sempre que alguém recorre a buzina, se ouve a sentença: "Deve ser da capital!"

As ruas, ônibus e metrôs estao sempre cheios, independentemente do horário. Se encontra aqui diversidade de opçoes durante toda a madrugada. Quer um cachorro quente feito por um coreano muçulmano as 4 da manha? Aposto que se procurar bem o encontra. Falando em diversidade, creio que essa seja uma boa definiçao para cidades grandes em geral. Ontem estive em uma Lan House que tinha como atendente uma oriental (nao sei dizer de onde) que praticamente nao falava espanhol, indicava qual computador utilizar através de plaquetas com números e todo o mais dizia através de gestos.

Porém essa diversidade gera uma infinidade cultural invejável e basta andar pela avenida Corrientes com seu número incalculável de teatros, colados uns aos outros, para se notar isso. Músicos estao espalhados por todos os cantos. Bandas com 5 ou 6 músicos espalham tango, jazz, rock e bossa pelos calçadoes com seus saxofones, trompetes e trombones, quando por acaso nao se cruza com um piano que sabe deus como foi para ali. As estaçoes de metrô têm programaçoes culturais, que incluem música, teatro e dança, e nao é dificil encontrar um museo abaixo do solo por aqui.

Nao vou ser redundante em falar sobre a segurança em cidade grandes da América Latina.

Deixando de falar sobre a cidade e voltando a falar sobre mim, posso afirmar que estou feliz. Já encontrei alguns amigos por aqui, por mais que tenha ainda alguns outros para procurar, e estou tratando de fazer também novas amizades. Encontrei por exemplo Horácio, o senhor que me deu carona em Colonia del Sacramento no Uruguay e me levou para conhecer seu museu de automóveis antigos. Encontrei também uma amiga, Natali, que me prometeu juntar todas as garotas que foram juntas a Florianópolis e que conheci durante minha temporada de trabalho na escola de mergulho no último verao para uma balada. Fui novamente a um lugar que a muito esperava a oportunidade de reencontrar, Maluko Beleza, um bar brasileiro que marcou profundamente minha primeira viagem, e tive a boa sorte de reencontrar algumas antigas amizades por lá. Tudo isso transformou em extremamente agitados meus primeiros dias nesta incrível cidade.

Porém algo hoje abalou minha agitade tranquilidade, rs. Minha mae esteve nos últimos dias buscando uma forma de me mandar algumas coisas, que me serao extremamente úteis, junto com alguns presentes que me deram minhas irmas com seus maridos, e tenho que dizer que falhou em encontrar. Provável que inconscientemente, baseado no conhecimento que tenho sobre meus pais, arquitetaram um maquiavélico plano.

Começaram dizendo que viriam me trazer a bagagem pessoalmente, o que, por mais insano que pareça, me pareceu uma idéia agradável - nao exatamente uma boa idéia, deixo claro - já que teríamos a oportunidade de matar a saudade mutuamente. Porém, pensaram e disseram que nao têm dinheiro suficiente para os dois, entao apenas um dos dois viria. Alegando que nao seria justo com o que ficasse e apelando para o sobrinho que ainda nao conheço, sugeriram que eles pagassem minhas pagassens, ida e volta para Buenos Aires, ao invés de pagarem a de um deles, para que eu vá pessoalmente "pegar as minhas coisas". Como argumento, me mostraram os descontos que tornam a viagem entre Buenos Aires e Curitiba mais barata que o trecho Curitiba-Sao Paulo e me disseram que com uma semana lá poderia pagar facilmente a viagem para eles, se assim eu desejar, dando algumas aulas para antigas alunas.

Sinceramente nao sei o que fazer. Admito que fui pego desprevenido e tenho que pensar a respeito. A oportunidade de passar uma semana em casa, matar a saudade da família e dos amigos, conhecer meu sobrinho é realmente tentadora, porém nao sei os efeitos que isso poderia causar em minha viagem. Como disse no princípio espalhei currículos por todos os lados e nao gostaria de perder as escassas oportunidades que possam aparecer, além do que me parece um pouco hipócrita de minha parte gastar em passagens metade do que gastei em 3 meses de viagem, por mais que estaria gastando um dinheiro que nao é meu. Quanto dinheiro vale matar a saudade daqueles que ama? Em questao de duas horas já estive decidido a ir, a nao ir, a ir novamente e no momento estou inclinado a nao ir, mas escrever esse texto está me mostrando que talvez ir nao seja uma má idéia.

Vou me dar um tempo para pensar, por mais que meu pai queira que eu decida rápido - por ele, tomaria o aviao amanha; nao, nao estou brincando e nem exagerando - e seguirei o conselho de minha irma de colocar os prós e contras no papel. Assim que tomar a decisao deixarei que voces fiquem sabendo.

Bom, com muito para pensar e sem mais o que escrever, me despeço de todos com um grande abraço e como diria Willian Bonner: "Boa Noite"!

Hasta pronto,

Andejo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Vida Louca Vida


Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve

Após citar Cazuza sigo com um pedido de desculpas: Desculpem-me. Ausentei-me deste blog por tempo demais, mas tempo do que deveria. Porém, asseguro-lhes que nao foi por mal, por diversas vezes sentei em frente ao computador e tentei sem sucesso escrever algo e acrescento que os últimos dias em meu diários estao igualmentes cheios de vazio.

Minha viagem neste momento nao está exatamente inspiradora, ou talvez eu que nao esteja inspirado com minha grande viagem. O que sei é que no momento esta faltando alguma coisa que nao sei exatamente o que é, entao sigo olhando para todos os lados na experança de encontrar o elo perdido.

Passei meus últimos 15 dias em Rosário, na província de Santa Fé. Cidade Maravilhosa, mesmo que incomparável com a cidade brasileira proprietária do mesmo título. Nao muito grande em tamanho e populaçao - algo cerca de 2 milhoes de habitantes - muito se assemelha com uma metrópole. A cidade nao dorme. Existem inúmeros pubs e clubs e 'bs' de todos os tipos e gostos. Tango, salsa, música eletrônica, cumbia, reggaeton, blues, rock, jazz e tudo o mais que se desejar se encontra por aqui. O agito mesmo fica guardado de quinta a domingo, porém diferente dos 2 milhoes de habitantes de Curitiba, os daqui sempre amanhecem na balada - aqui as pessoas chegam nas baladas ao mesmo horário que fecham as da cidade ecológica, rs.

Visitei também vários museos, em sua maioria gratúitos, parques e tive suficiente tempo para caminhar por toda a cidade. Conheci pessoas incríveis por aqui também, algumas no hostel em que fiquei nos 3 primeiros dias, entre eles israelenses, franceses, espanhóis, italianos e americanos e outras depois de ficar os dias restantes na casa de Sebastian, um novo velho amigo, daqueles que estou me acostumando a fazer na viagem. Reencontrei também Alícia, minha avó argentina que estava morando em Rosário, para minha boa surpresa.

Enfim, tive maravilhosos dias nessa cidade, porém algo faltava... dinheiro! E como procurei! Nao exatamente dinheiro, mas sim trabalho. Entreguei um bocado de currículos em todos os bares e restaurantes que encontrei, porém enquanto Dionísio me abençoava com muito vinho e festa, Hefesto desviou os olhos dos trabalhos pretendido a mim.

Sendo assim, enfim voltei ao meu plano original que era buscar trabalho em Buenos Aires. Andrew, um americano que conheci na casa de Sebastian também estava com o destino traçado e decidimos ir juntos de trem para a Capital Argentina, e que viagem. O trem pulava dos trilhos mal conservados a grande velocidade e todos amaldiçoavam o maquinista. Parava em todos os lugares possíveis e imaginaveis, fazia frio durante a noite e calor durante o dia e demoramos 9 horas para percorrer os 300 km entre Rosário e a cidade portenha. Mas as poltronas eram confortáveis, rs.

Chegando aqui novos sentimentos se despertaram e a partir daqui será tudo realmente novo para mim. Já estou alojado na casa de um amigo e hoje começo a procurar trabalho. Estou reformulando minha viagem e decidirei nos próximos dias novos prazos e destinos, que nao serao tao alterados assim.

Bom, quando se está parado em um local nao se tem tanta coisa para contar, mas ja tenho alguns assuntos interessantes com que entreter voces enquanto minha rotina nao se torna por si só atraente o suficiente para prender sua atençao. Aguardem e confiram.

Espero voltar aqui em breve. Grande abraço,

Andejo




segunda-feira, 26 de abril de 2010

Curiti...digo...Córdoba

Na realidade as duas cidades do título nao sao tao parecidas, porém, comparando as diferenças de costumes dos lugares, essa capital,pertencente a província de mesmo nome, me fez de certa forma me sentir em casa, ou quase.

Pero bueno, antes preciso relatar de forma rápida como cheguei a esse lugar, começando de onde parei na última postagem, ou seja, o pedágio Vitória-Rosário e os 'companheiros' de piquete da Sutracovi

Após terminada a manifestaçao, já na tarde de quarta-feira, alguns manifestantes filiados a Sutracovi que eram de outra praça de pedágio me levaram com eles na volta para casa, uns 60 km em direçao a Córdoba, até uma outra praça de pedágio onde seria mais fácil achar alguém que tivesse o mesmo destino que eu. Entretanto 'mais fácil' nao necessáriamente significa 'fácil' e nesse pedágio tremi de frio até o princípio da noite. Graças a ajuda de uma atendente do pedágio, porém, um caminhoneiro parou e me levou até Río Primero, pequeno povoado a 50km de Córdoba. Viagem muito longa e cansativa, com o caminhao a nao mais do que 70 km/h levou uma eternidade para chegarmos ao nosso destino e ali chegamos por volta de meia noite e meia. Congelando de frio, extremamente cansado e resignado, decidi buscar um hotel, e pela incrível lei de Murph, na primeira vez que procurei abrigo pago em um lugar, nao haviam vagas. Um pouco consternado com a falsa impressao - verao a seguir - de falta de sorte, caminhei aleatoriamente pela fria cidade durante sua serena noite de outono até encontrar, enfim, uma luz acesa - um kiosco, comércio que se assemelha a um mercadinho no Brasil, que por sorte era 24 horas.

Imaginem a cena: Um mochileiro, com uma mochila de 75 litros nas costas, com uma de 35 litros no peito e com um violao no ombro, tremendo de frio, entra em uma pequena venda, onde estavam 4 pessoas do pequeno povoado com nao mais de 5 mil habitantes, perto das 2h da madrugada.

Os 4 entao se calaram me olharam, se entreolharam, e entao, com forte sotaque Cordobês, responderam ao meu cumprimento e com tato comecei a conversar com todos, conversa essa que se estendeu por um bom tempo. Um deles era um rapaz de uns 30 anos que junto com seu irmao era o dono do kiosco, e me disse, após eu afirmar que meu destino era Córdoba e nao a pequena cidade, e que nao continuaria a viagem naquele dia pois viajava de carona e era praticamente impossível que me levantassem a noite, que ele mesmo iria na manha seguinte a capital resolver uns assuntos particulares e me levaria se fosse do meu interesse. Rapidamente acertamos detalhes, ele se foi dormir e eu fiquei protegido do frio no kiosco, já descrente da falta de sorte. Na manha do dia seguinte finalmente cheguei a segunda maior cidade da Argentina, Córdoba, com seus cerca de 3 milhoes de habitantes e finalmente, fato que ha tempos nao ocorria, vi muita gente e movimento de verdade nas ruas.

Na primeira noite fiquei na casa de um rapaz de minha idade, professor de tango, que logo se animou com meu conhecimento em danças brasileiras e me apresentou pessoas, entre essas, Grillo, dono do Yoruba Dance Company. Aqui enfim chegamos a segunda parte do título da última postagem, lugar esse que foi o motivo da minha larga permanência em Córdoba. Eu, Pablo, Anahí, professora de ritmos brasileiros da escola e Grillo armamos rapidamente um workshop de Samba de Gafieira e Zouk para a sexta-feira seguinte, significando que ficaria muito tempo na cidade.

Enquanto eles se preocupavam em fazer a publicidade eu relaxaca, conhecia a cidade e preparava Anahí para me ajudar nas aulas. Foram 10 dias em Córdoba, dividindo os dias em maravilhosos, normais, entediantes e interessantes.

Já no segundo dia me mudei de casa. Me hospedei na casa de Ricardo, um advogado que trabalha de juiz numa cidade a 50km de Córdoba. Um belo apartamento, extremamente organizado. Completamentes diferentes, mas tendo em vista o grande respeito das duas partes a opiniao alheia, essa diferença, ao invés de se tornar um problema, se tornou motivo de grandes conversas e indagaçao e isso muito me alegrou. Ter a possibilidade de conhecer idéias e ideais distintos, pontos de vista de um outro país, outras formas de se viver, compartilhar a paixao de viajar, vividas de formas tao diferentes pelos dois interlocutores e outros mil assuntos mais, desde ocultismo até direito internacional, nao podendo deixar de citar a música, paixao também dividida pelas duas partes, tornaram partes dos dias nesta cidade interessantes.

Porém outra parte nao foi tao boa. A impossibilidade de gastar dinheiro e o excesso de tempo livre tornaram parte dos dias extremamente entediantes, e permiti que isso me prejudicasse. Confesso que poderia ter conehcido mais da cidade, entretanto estava cansado, no momento, de monumentos e praças, e se nao fosse para conhecer a vida cotidiana das pessoas da regiao, nao saia de casa, passando assim muitos momentos em casa, assistindo, por exemplo Caminho das Indias dublado em espanhol, aqui chamado de "India, Uma História de Amor". Incrédulo, ficava rindo sozinho a todo instante: é pior que novelas mexicanas dubladas em português.

Nao posso, todavia, apenas reclamar. Fui a baladas, teatros e milongas - bailes onde se dançam 3 estilos típicos argentinos: tango, milonga e vals - e o melhor, todos de graça. Dancei salsa em baladas até a exaustao, dancei tangos e milongas na Plaza San Martin, assisti a espetáculos impressionantes em lindos teatros, visitei igrejas e museus. Tudo isso tornou grande parte dos dias maravilhosamente agradáveis.

Creio que nao necessito falar sobre a normalidade dos dias normais.

Bom, sexta-feira enfim chegou, dei as aulas, fiz algum dinheiro, porém me enrolei para ir embora e fiquei até domingo de manha em Córdoba. Na própria sexta fui novamente a uma salsa onde me acabei de dançar novamente, e no sábado nao fiz nada de útil. Ao menos tive muita sorte na hora de sair da cidade. Ricardo me levou até a Ruta 9 que leva direto a Rosário, que era meu objetivo no momento e em menos de 10 minutos parou um carro que ia para Buenos Aires, ou seja, fiz os 400 km que separam as duas cidades somente com uma carona.

Agora estou num hostel em Rosário. Pela primeira vez na viagem gastando dinheiro com estadia, mas logo parto para Buenos Aires e enfim buscarei de fato um trabalho, torçam por mim!

Rosário é uma cidade linda e agradável, mas conto como foi por aqui na próxima postagem!! (Isso tá virando novela, rs!!!)

Um grande abraço a todos e muito obrigado pela força que têm me dado!

Andejo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De Sutracovi a Yoruba

Sindicato Único de Trabajadores de Concesionarias Viales y Afines. Com o nome desse sindicato, que tem como objetivo, em geral, proteger os trabalhadores de estaçoes de pedágios, inicío essa postagem. O porquê será dito em seu devido momento, e antes que este chegue, partamos de minha partida de Concepción del Uruguay.

Eu esperava ansiosamente pela chegada de José e Mariela na manha de terça-feira, mas nao foram eles que chegaram e sim a mae de José. Me disse que seu filho e sua nora iriam partir para outra viagem sem passar em casa, e disse que me levaria até a estrada onde eles passariam, para eu aproveitar a carona para seguir meu destino.

Apressadamente coloquei as coisas dentro da mochila e em menos de meia hora subia novamente no caminhao de José, desta vez a última. Consegui pegar algumas fotos com eles e viajei uns 60 Km em direçao a Córdoba, meu objetivo. A despedida foi bacana, demonstrando os dois lados que uma nova amizade havia sido construída. Sentirei saudades desse casal.

Isso é uma das muitas coisas difíceis que estrada nos proporciona. Encontro pessoas que salvam minha vida a todo instante, que me alimentam, arranjam-me abrigo em uma noite chuvosa, apresentam-me pais, esposas, filhos, amigos, vizinhos e cachorros. Nao mais do que em um momento se cria um forte vínculo emocional, paterno, fraterno; me acolhem em seu círculo mais íntimo e familiar. Porém em dias, horas ou apenas em minutos eu sigo caminhando, novamente perdido em pensamentos; e as despedidas... nao podem imaginar como sao dolorosas, como sao aquelas que dedicamos aos amigos mais próximos. Fico imaginando se um dia poderei reencontrar essas pessoas que me ajudaram sem esperar nada em troca, e tenho também a certeza que ficam eles, que me vêem partindo caminhando para longe, imaginando o que teria acontecido com aquele jovem andarilho.

Desci entao do caminhao, assim como qualquer pessoa desce do carro de um amigo depois de uma noite de festa e caminha em direçao a sua casa; a minha é negra, normalmente pintada com faixas amarelas ou brancas e a cada dia que acordo vejo pela janela uma paisagem diferente. E como saindo mais um dia pra trabalhar, subi em um Uno de um policial que viajava com sua mae. Em mais uma efêmera amizade, iniciada a partir do gosto em comum pela música, me convidou para almoçar em sua casa, em Tala, ainda na província de Entre Ríos. Comi como se estivesse em minha casa e entao Carlos, como era chamado o policial me levou novamente para a estrada, onde em pouco minutos fui levado por um caminhoneiro e sua esposa alguns quilômetros a frente onde constatei sinais que meus próximos momentos nao seriam fáceis, gotas começaram a cair do céu.

Quando a chuva veio de verdade me abriguei em uma cabine da polícia caminera, equivalente a nossa rodoviária, que jazia desocupada a beira da Ruta 39. Mas a chuva nao durou e logo subi noutro Focus até Vitória, última cidade entre os ríos Paraná e Uruguay. Apenas uma estrada concessionada me separava da Província de Santa Fé, porém me separou por mais tempo e de maneira completamente inusitada.

Outro caminhoneiro, este Cordobês, com sotaque muito distinto do que havia encontrado até aqui me levou de Vitória até a praça de pedágio da rodovia citada acima e como chegamos já durante a noite, nao consegui carona em direçao a Rosario. Estava agasalhado o máximo que podia, mas mesmo assim o vento passava congelando até minha alma, e para ajudar, voltou a chover, e nao parou mais. Me abriguei em baixo da praça de pedágio, onde estava acontecendo uma manifestaçao: os trabalhadores, filiados a Sutracovi, estavam em greve. As cancelas estavam todas abertas, os trabalhadores batucavam tambores e os motoristas passavam buzinando e eu ali, com fome, frio e sono, mas nao por muito tempo.

Um dos trabalhadores reparou naquele curioso garoto que tremia incessantemente e foi com ele trocar dois dedos de prosa. A prosa rendeu e o trabalhador, chamado Alexis, convidou o garoto a se juntar aos outros trabalhadores, que comiam um churrasquinho de frango, assim acabando com a fome que ele sentia, que tomavam vinho e fernet ao lado de uma fogueira, acabando assim com o frio que o cortava, e mais tarde, depois de muita festa, música e conversa, arranjaram também ao garoto um local abrigado para passar a noite, desejando-lhe um bom sono. Assim o foi, e o garoto, um andejo vadio perdido numa estrada argentina, fez novamente novas amizades.

Acordei no outro dia, sabendo que aquilo tudo podia nao ter passado de um sonho delirante de um desamparado, porém, sempre consciente, sabia que nao o era, e sim sabia que a sorte, que ditados sempre dizem que acompanha os aventureiros, nao tinha me excluído da lista de beneficiados. No outro dia café da manha seguido por um delicioso churrasco e discursos impressionantes sobre política seguiram por toda manha e parte da tarde. Um banho foi o divisor de águas.

Enquanto os trabalhadores se reuniam em uma assembléia fui tomar um delicioso banho quente. Quando sai do banheiro tudo estava diferente: o sol, escondido por densas nuvens a alguns dias estava de volta, tornando dispensáveis as blusas que usava, tambores nao mais tocavam, faixas de protesto nao mais podiam ser vistas e as cancelas voltaram a trabalhar, o protesto havia terminado e com ele minha estadia no meu Hotel Pedágio Vitória-Rosário. Fui convidado a ir a outro hotel, já que uma nova paralisaçao teria início no dia seguinte em outra praça, porém o norte da minha bússola apontava em outra direçao, Córdoba, cidade que chegaria no dia seguinte, e que estou no momento. Porém as histórias dessa cidade e de Yoruba ficam para uma próxima postagem.

To be continued...

Abraços,

Andejo.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Entre o Céu e o Inferno

Talvez a frase seja um pouco exagerada, admito, entretanto representa bem o que sinto no momento, além ser uma frase de efeito do estilo que me agrada.

Nada melhor do que encontrar novos velhos amigos na estrada, e assim foi aqui em Concepción del Uruguay, cidade que apesar do nome, fica na Argentina. Cidade natal de José e Mariela, casal que eu conheci na casa de Rossana e Nacho, em El Pinar, pertinho de Montevidéo, e que me convidou para os visitar, sem acreditar, penso eu, que eu o faria tão pronto cruzasse a fronteira.

Cheguei pensando em uma visita rápida, e no começo nos tratamos cheios de dedos devido à falta de intimidade, que foi superada de maneira rápida devido à ótima presença de espírito de todos. Assim fui convidado a ficar até domingo, e assim o fiz, o que foi uma de minhas boas escolhas nessa viagem. Me diverti muito, fui apresentado a dezenas de pessoas interessantes, entre elas um tio de Mariela, o Tio Quinto, que assim é chamado por ser o quinto filho de sua família.

Senhor extremamente atencioso e interessante, com infinitas histórias sobre suas viagens a todas as partes do Brasil, país que o encanta. Como Mariela e José trabalham bastante, passei muitos momentos em companhia de Quinto, todos eles agradáveis, aproveitando a incrível sabedoria de sua avançada idade, por mais que sua boa aparência e saúde não a demonstrem com veracidade. Adora cozinhar, e o faz muito bem, o que muito me agrada, já que assim posso me sentir um pouco mais em casa.

Conheci toda a pequena cidade de Concepción, seus costumes, seus habitantes. Viajei de caminhão com José e Mari ao campo ao som de Back in Black, acompanhei a colheita de soja, aprendi a amarrar a lona de uma carroceria, tomei mate vendo no exato instante do poente sol. Fui entrevistado numa rádio, que José, jornalista, trabalha, o que foi extremamente interessante, por mais que meu espanhol ainda não seja eloquente. Fui a um aniversário, interagindo assim num momento íntimo de uma família interiorana argentina. Tive a oportunidade de divulgar sobre a música, o cinema e a literatura brasileira, assim como tive a oportunidade de adquirir conhecimento sobre os mesmos assuntos no que diz respeito aos nossos vizinhos. Esses dias inesquecíveis se resumem em uma palavras: incríveis.

Neste momento que vos escrevo, já deveria estar longe da cidade, porém algo que eu julguei extremamente catastrófico e tristonho, e em proporções menores realmente o é, aconteceu: Meu pendrive parou de funcionar, e até agora não consegui reverter o problema. A consequência: Perdi todas as fotos da viagem que eu tinha até aqui. Estou ansioso para que José chegue para tentarmos juntos fazer com que isso seja apenas um susto.

Isso me levou do céu ao inferno em segundos, justificando assim o título dessa postagem. Meu coração acelerou e meus olhos se encheram de lágrimas. Para mim é tão fácil se desapegar de tantas coisas, porém essas fotos retratavam momentos únicos. Assumo que ao iniciar esta postagem eu estava mais comovido, mas analizando tudo o que tenho vivido não posso reclamar do que perdi, sendo assim mais conveniente levantar a cabeça e buscar aquilo que saí a procura, e que não era fotos de lugares bonitos. Outra coisa que me fez colocar a mão na consciência é o caos que está vivendo o Rio de Janeiro - eu perdi umas fotos, e eles?

Peço desculpas ao Alexandre, meu ex-companheiro de viagem a quem fiquei de enviar as fotos num CD por correio. Planejava, entretanto, enviá-las a ele juntamente com uma carteirinha de visitante do fim do mundo com o seu nome, porque conhecia seu desejo de portar tal objeto, e dadas suas condições, gostaria de realizar esse seu último desejo de viajante. Mas tenha certeza que se eu puder recuperar essas fotos e as enviar, eu o farei.

Sendo assim, me encontro ainda em Concepción, ao menos por mais essa noite. Pegarei assim as fotos que os dois, José e Mari, tiraram e as colocarei no ar e amanhã irei rumo a Córdoba, tendo que bater o atual récorde e fazer 500 Km num só dia. Lá ficarei na casa de um professor de tango, que conheci também pelo Couch Surfing. De lá sigo para Santa Fé e depois pra Rosário, onde enfim cairei na estrada com o intúito de chegar em Buenos Aires, onde ficarei por alguns dias, como já disse antes.

É isso aí, desejem sorte a mim, tanto com as caronas quanto com o famigerado aparato que devorou minhas fotos, porque nos próximos momentos eu seguramente necessitarei da ajuda vindas das forças do acaso.

Agradeço sinceramente os comentários feitos, e como retribuição busco cada vez mais melhorar esse espaço de integração entre viajante, familiares, amigos e curiosos, espero que estejam gostando das mudanças.

Especiais agradecimentos a Mariela e José, além de um grande abraço a todos,

Andejo.