O Andejo Vadio
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"I always wonder why birds choose to stay in the same place when they can fly anywhere on the Earth. Then I ask myself the same question."
(Harun Yahya)

sábado, 12 de junho de 2010

Enfrentando a Realidade

Que saudade de todos vocês! Quase um mes já, não é? Não têm idéia de como sinto falta de minha presença constante nesse lugar em que sempre tão oportunamente posso compartilhar meus pensamentos, anseios, dúvidas e alegrias com todos.

Tenho que admitir que no atual momento o nome escolhido para o blog não combina muito com minha realidade: de andejo pouco me restou, de vadio, só a lembrança de minhas horas intermináveis na beira da estrada a espera de carona.

Muita coisa aconteceu desde minha última postagem e é isso que espero contar nas próximas linhas, que devo admitir serão muitas. Eu sei, não reclamem, gosto de escrever, e tenham certeza de que tento ao máximo achar uma forma de escrever de maneira concisa, sem subtrair completamente a emoção que senti em cada momento e sem omitir os fatos mais importantes. Tampouco escrevo tudo o que vivo, na realidade omito muita coisa – curiosos, perguntem a mim, rs!

Que tal irmos agora ao que interessa? Comecemos pela resposta que deixei pendente na última postagem: Não, não fui e não pretendo ir ao Brasil agora. Nos dias seguintes à proposta realizada por meus pais segui procurando trabalho, até que pudesse chegar a uma decisão. Decisão essa que foi tomada de maneira mais simples do que imaginava dado os fatos que se seguiram. Meu celular começou a tocar e as propostas de trabalho a aparecer: garçom, operador de telemarketing e a que gerou resultado, vendedor.

No sábado dia 22 comecei a trabalhar numa loja de roupas bem bacana! Gente jovem, boa gente. Roupas caras, porém em um bom preço para os muitos turistas que frequentam a calle Florida – aqueles que já estiveram em Buenos Aires seguramente estiveram nesta rua – dada a desvalorização da moeda local. Quase todos os clientes são estrangeiros e seguramente falo mais português e inglês do que espanhol neste lugar, e quando o faço é com chilenos, equatorianos e pessoas de tantos outros lugares desse mundo todo.

Buena onda, como costumam dizer aqui, comecei vendendo bem, passei por longos momentos solitários organizando estoques e tive a possibilidades de conhecer pessoas novas por aqui. Estou atingindo meus objetivos: a poucos dias recebi meu primeiro salário, que foi apenas a fração trabalhada do mês, mas foi agradável receber dinheiro de um lugar que não seja o impessoal caixa automático – quem acompanha o blog sabe a quanto tempo busco um trabalho. Também estou tendo a oportunidade de treinar idiomas, hoje posso com orgulho dizer: “Falo fluentemente três idiomas: português, inglês e espanhol!” E agora sigo em busca do próximo, já averiguei algumas ilhas caribenhas que falam francês, quem sabe mais pra frente não arranjo um trabalho por lá?!?!

Uma outra novidade é que ganhei alguns presentes vindos do Brasil! Repararam que estou escrevendo em bom português, com acentuação, cedilha e tudo mais? Isso porque ganhei um netbook da minha irmã Vanessa e de meu cunhado Fernando, então, se agora encontrarem erros por aqui, atribuam-los à minha ignorância. Ganhei também uma câmera digital de minha outra irmã Liege e de meu cunhado Fábio e enfim os momentos vividos poderão ser devidamente compartilhados. De meus pais, que nunca deixariam de se fazer presentes recebi um par de roupas que vem a ser muito úteis nesse momento de estabilidade - trabalhar todos os dias com a mesma roupa não estava pegando bem. Saibam que em questão de utilidade todos os presentes competem pau a pau.

Estou vivendo um novo momento na viagem, e se futuramente quiser escrever um livro, já começo a ter uma noção de como organizá-lo. Em minha primeira viagem, saí de maneira bastante precipitada e trabalhei diversas vezes em trabalhos curtos para poder continuar viajando. Dessa vez é diferente. Esse trabalho e essa temporada que devo passar em Buenos Aires pra juntar mais uma graninha, fazem-me sentir preparado para a longa jornada que devo enfrentar. Os dois primeiros momentos ficaram para trás, o primeiro, de euforia e adrenalina e o segundo de medo e tristeza. Chamaria esse terceiro momento de “enfrentando a realidade”. Sei como estou e sei, relativamente, o que me espera adiante. Estou muito feliz e satisfeito. O momento é próspero por mais que alguns sustos sejam inevitáveis.

Dias atras estava feliz e contente em meu trabalho, pensando em uma forma de conseguir um bico para juntar um pouco mais de dinheiro quando entrou um homem, aparentemente um cliente, e lhe digo rotineiramente “hola, que tal, puedo ayudarte?” Ele me reponde, em tradução livre: “Claro, eu sou do ministério do trabalho e vim fazer uma inspeção (mostra sua identificação). Gostaria de saber se estão registrados, se o salário de vocês é adequado e se todas as questões trabalhistas estão sendo respeitadas?” - Com certeza fiquei branco e meu primeiro pensamento foi: “Putaquepariucaralhoporra, vou ser deportado da Argentina!!!!” mas o que saiu da minha boca foi: “Claro, não há problema! O gerente não está, mas o dono está aqui ao lado, chamo-o e volto num minuto.” Pensava que estava branco, mas duvido que tanto quanto meu chefe quando lhe dei o recado que havia uma inspeção trabalhista na loja. Rapidamente lhe sugeri dizer que eu estava fazendo apenas um teste e que, obviamente, estava com a documentação em trâmite. O funcionário público, que aparente pouco se importava com a verdade e devia querer se livrar o mais rápido possível do incomodo trabalho engoliu a história como se estivesse tomando um belo gole de cerveja gelada num quente dia de verão. Disseram-me que isso não vai dar em nada e eu ingenuamente acreditei. Espero que minha ingenuidade esteja certa. Se passar incólume por isso será mais uma de minhas histórias para contar!

Changing the subject, estou agora procurando um lugar para me mudar, afinal todo mundo merece um pouco de privacidade! Digo isso tanto por mim quanto pelas pessoas que me hospedam, que aposto não me suportam mais (mentira, eles me amam!!!hahaha). Seguramente expressei minha risada dessa forma pelo efeito dos drinks que estou tomando enquanto escrevo para vocês: já passaram pela mesa um Manhatan, uma Cuba Libre e o Mojito já está pela metade. Sim, agora que tenho um netbook estou escrevendo da mesa de um bar depois de um cansativo dia de trabalho. OBRIGADO VANE E FER!!!!! Ahhh mãe, nem vem, até que sou um filho responsável.

Minha preocupação no momento é como assistir as partidas do Brasil e continuar vivo no dia seguinte... bem... continuar vivo não é tão importante... o principal é assistir as partidas!!! Mas descobri que neste bar que eu estou vão transmitir os jogos.

Bah, sinceramente, já falei demais!!! Amo todo mundo, estou ligeramente afetado pelo alcool, levando-se em consideração que não como há um bom tempo, e estou cansado. Amanhã trabalho cedo e tenho que dormir. Como aqui não tem internet provavelmente só postarei amanhã (hoje para vocês).

Fora isso boa noite!

Ligeramente alterado (não mãe, bêbado não),

Andejo

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ir ou nao ir? Eis a questao!

Talvez eu tenha sido um pouco apressado ao utilizar o título da postagem passada, afinal ele caberia perfeitamente nessa. Por outro lado, acredito que aquele seria um possível título para pelo menos metade de todas as histórias que conto e que dizem respeito a essa viagem, entao deixemos de lastimar sobre isso por um instante.

Próximo a completar 100 dias de viagem, fato que ocorrerá amanha, sigo me surpreendendo. Diferente do que imaginava, estar 'parado' em uma cidade nao transformou minha vida em uma rotina - na realidade, nao passou nem perto disso - assim, diferente do título, guardo os assuntos relatados na mesma postagem citada acima para um momento mais propício.

Em Buenos Aires há muito trabalho. Algum para mim? Ainda nao sei. Os jornais estao repletos de anúncios, e a internet recheada de oportunidades e eu estou correndo atrás. Espalhei meu currículo pela cidade e pela rede e agora fico na torcida para que o esforço gere resultados. Algo já começou a acontecer, por mais que pouquíssimos dias tenham passado. Já fiz um free de barman em uma balada aquí em Lanús (regiao que estou hospedado na grande Buenos Aires), e amanha tenho uma entrevista para trabalhar de garçom em festas e eventos, porém, nada mais estável e constante tem surgido como opçao.

Nessas andanças todas pude reavivar como é uma cidade grande de fato. Com seus 16 milhoes de habitantes, a capital argentina transpira agito - e se respira poluiçao. Poluiçao essa que é gerada em parte pela imensa quantidade de veículos que tornam o trânsito um caos completo. Caos esse que estimula, inevitavelmente, o uso constante e irritante das buzinas. Buzinas essas que sao a marca registrada dos portenhos - no interior do país, sempre que alguém recorre a buzina, se ouve a sentença: "Deve ser da capital!"

As ruas, ônibus e metrôs estao sempre cheios, independentemente do horário. Se encontra aqui diversidade de opçoes durante toda a madrugada. Quer um cachorro quente feito por um coreano muçulmano as 4 da manha? Aposto que se procurar bem o encontra. Falando em diversidade, creio que essa seja uma boa definiçao para cidades grandes em geral. Ontem estive em uma Lan House que tinha como atendente uma oriental (nao sei dizer de onde) que praticamente nao falava espanhol, indicava qual computador utilizar através de plaquetas com números e todo o mais dizia através de gestos.

Porém essa diversidade gera uma infinidade cultural invejável e basta andar pela avenida Corrientes com seu número incalculável de teatros, colados uns aos outros, para se notar isso. Músicos estao espalhados por todos os cantos. Bandas com 5 ou 6 músicos espalham tango, jazz, rock e bossa pelos calçadoes com seus saxofones, trompetes e trombones, quando por acaso nao se cruza com um piano que sabe deus como foi para ali. As estaçoes de metrô têm programaçoes culturais, que incluem música, teatro e dança, e nao é dificil encontrar um museo abaixo do solo por aqui.

Nao vou ser redundante em falar sobre a segurança em cidade grandes da América Latina.

Deixando de falar sobre a cidade e voltando a falar sobre mim, posso afirmar que estou feliz. Já encontrei alguns amigos por aqui, por mais que tenha ainda alguns outros para procurar, e estou tratando de fazer também novas amizades. Encontrei por exemplo Horácio, o senhor que me deu carona em Colonia del Sacramento no Uruguay e me levou para conhecer seu museu de automóveis antigos. Encontrei também uma amiga, Natali, que me prometeu juntar todas as garotas que foram juntas a Florianópolis e que conheci durante minha temporada de trabalho na escola de mergulho no último verao para uma balada. Fui novamente a um lugar que a muito esperava a oportunidade de reencontrar, Maluko Beleza, um bar brasileiro que marcou profundamente minha primeira viagem, e tive a boa sorte de reencontrar algumas antigas amizades por lá. Tudo isso transformou em extremamente agitados meus primeiros dias nesta incrível cidade.

Porém algo hoje abalou minha agitade tranquilidade, rs. Minha mae esteve nos últimos dias buscando uma forma de me mandar algumas coisas, que me serao extremamente úteis, junto com alguns presentes que me deram minhas irmas com seus maridos, e tenho que dizer que falhou em encontrar. Provável que inconscientemente, baseado no conhecimento que tenho sobre meus pais, arquitetaram um maquiavélico plano.

Começaram dizendo que viriam me trazer a bagagem pessoalmente, o que, por mais insano que pareça, me pareceu uma idéia agradável - nao exatamente uma boa idéia, deixo claro - já que teríamos a oportunidade de matar a saudade mutuamente. Porém, pensaram e disseram que nao têm dinheiro suficiente para os dois, entao apenas um dos dois viria. Alegando que nao seria justo com o que ficasse e apelando para o sobrinho que ainda nao conheço, sugeriram que eles pagassem minhas pagassens, ida e volta para Buenos Aires, ao invés de pagarem a de um deles, para que eu vá pessoalmente "pegar as minhas coisas". Como argumento, me mostraram os descontos que tornam a viagem entre Buenos Aires e Curitiba mais barata que o trecho Curitiba-Sao Paulo e me disseram que com uma semana lá poderia pagar facilmente a viagem para eles, se assim eu desejar, dando algumas aulas para antigas alunas.

Sinceramente nao sei o que fazer. Admito que fui pego desprevenido e tenho que pensar a respeito. A oportunidade de passar uma semana em casa, matar a saudade da família e dos amigos, conhecer meu sobrinho é realmente tentadora, porém nao sei os efeitos que isso poderia causar em minha viagem. Como disse no princípio espalhei currículos por todos os lados e nao gostaria de perder as escassas oportunidades que possam aparecer, além do que me parece um pouco hipócrita de minha parte gastar em passagens metade do que gastei em 3 meses de viagem, por mais que estaria gastando um dinheiro que nao é meu. Quanto dinheiro vale matar a saudade daqueles que ama? Em questao de duas horas já estive decidido a ir, a nao ir, a ir novamente e no momento estou inclinado a nao ir, mas escrever esse texto está me mostrando que talvez ir nao seja uma má idéia.

Vou me dar um tempo para pensar, por mais que meu pai queira que eu decida rápido - por ele, tomaria o aviao amanha; nao, nao estou brincando e nem exagerando - e seguirei o conselho de minha irma de colocar os prós e contras no papel. Assim que tomar a decisao deixarei que voces fiquem sabendo.

Bom, com muito para pensar e sem mais o que escrever, me despeço de todos com um grande abraço e como diria Willian Bonner: "Boa Noite"!

Hasta pronto,

Andejo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Vida Louca Vida


Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve

Após citar Cazuza sigo com um pedido de desculpas: Desculpem-me. Ausentei-me deste blog por tempo demais, mas tempo do que deveria. Porém, asseguro-lhes que nao foi por mal, por diversas vezes sentei em frente ao computador e tentei sem sucesso escrever algo e acrescento que os últimos dias em meu diários estao igualmentes cheios de vazio.

Minha viagem neste momento nao está exatamente inspiradora, ou talvez eu que nao esteja inspirado com minha grande viagem. O que sei é que no momento esta faltando alguma coisa que nao sei exatamente o que é, entao sigo olhando para todos os lados na experança de encontrar o elo perdido.

Passei meus últimos 15 dias em Rosário, na província de Santa Fé. Cidade Maravilhosa, mesmo que incomparável com a cidade brasileira proprietária do mesmo título. Nao muito grande em tamanho e populaçao - algo cerca de 2 milhoes de habitantes - muito se assemelha com uma metrópole. A cidade nao dorme. Existem inúmeros pubs e clubs e 'bs' de todos os tipos e gostos. Tango, salsa, música eletrônica, cumbia, reggaeton, blues, rock, jazz e tudo o mais que se desejar se encontra por aqui. O agito mesmo fica guardado de quinta a domingo, porém diferente dos 2 milhoes de habitantes de Curitiba, os daqui sempre amanhecem na balada - aqui as pessoas chegam nas baladas ao mesmo horário que fecham as da cidade ecológica, rs.

Visitei também vários museos, em sua maioria gratúitos, parques e tive suficiente tempo para caminhar por toda a cidade. Conheci pessoas incríveis por aqui também, algumas no hostel em que fiquei nos 3 primeiros dias, entre eles israelenses, franceses, espanhóis, italianos e americanos e outras depois de ficar os dias restantes na casa de Sebastian, um novo velho amigo, daqueles que estou me acostumando a fazer na viagem. Reencontrei também Alícia, minha avó argentina que estava morando em Rosário, para minha boa surpresa.

Enfim, tive maravilhosos dias nessa cidade, porém algo faltava... dinheiro! E como procurei! Nao exatamente dinheiro, mas sim trabalho. Entreguei um bocado de currículos em todos os bares e restaurantes que encontrei, porém enquanto Dionísio me abençoava com muito vinho e festa, Hefesto desviou os olhos dos trabalhos pretendido a mim.

Sendo assim, enfim voltei ao meu plano original que era buscar trabalho em Buenos Aires. Andrew, um americano que conheci na casa de Sebastian também estava com o destino traçado e decidimos ir juntos de trem para a Capital Argentina, e que viagem. O trem pulava dos trilhos mal conservados a grande velocidade e todos amaldiçoavam o maquinista. Parava em todos os lugares possíveis e imaginaveis, fazia frio durante a noite e calor durante o dia e demoramos 9 horas para percorrer os 300 km entre Rosário e a cidade portenha. Mas as poltronas eram confortáveis, rs.

Chegando aqui novos sentimentos se despertaram e a partir daqui será tudo realmente novo para mim. Já estou alojado na casa de um amigo e hoje começo a procurar trabalho. Estou reformulando minha viagem e decidirei nos próximos dias novos prazos e destinos, que nao serao tao alterados assim.

Bom, quando se está parado em um local nao se tem tanta coisa para contar, mas ja tenho alguns assuntos interessantes com que entreter voces enquanto minha rotina nao se torna por si só atraente o suficiente para prender sua atençao. Aguardem e confiram.

Espero voltar aqui em breve. Grande abraço,

Andejo




segunda-feira, 26 de abril de 2010

Curiti...digo...Córdoba

Na realidade as duas cidades do título nao sao tao parecidas, porém, comparando as diferenças de costumes dos lugares, essa capital,pertencente a província de mesmo nome, me fez de certa forma me sentir em casa, ou quase.

Pero bueno, antes preciso relatar de forma rápida como cheguei a esse lugar, começando de onde parei na última postagem, ou seja, o pedágio Vitória-Rosário e os 'companheiros' de piquete da Sutracovi

Após terminada a manifestaçao, já na tarde de quarta-feira, alguns manifestantes filiados a Sutracovi que eram de outra praça de pedágio me levaram com eles na volta para casa, uns 60 km em direçao a Córdoba, até uma outra praça de pedágio onde seria mais fácil achar alguém que tivesse o mesmo destino que eu. Entretanto 'mais fácil' nao necessáriamente significa 'fácil' e nesse pedágio tremi de frio até o princípio da noite. Graças a ajuda de uma atendente do pedágio, porém, um caminhoneiro parou e me levou até Río Primero, pequeno povoado a 50km de Córdoba. Viagem muito longa e cansativa, com o caminhao a nao mais do que 70 km/h levou uma eternidade para chegarmos ao nosso destino e ali chegamos por volta de meia noite e meia. Congelando de frio, extremamente cansado e resignado, decidi buscar um hotel, e pela incrível lei de Murph, na primeira vez que procurei abrigo pago em um lugar, nao haviam vagas. Um pouco consternado com a falsa impressao - verao a seguir - de falta de sorte, caminhei aleatoriamente pela fria cidade durante sua serena noite de outono até encontrar, enfim, uma luz acesa - um kiosco, comércio que se assemelha a um mercadinho no Brasil, que por sorte era 24 horas.

Imaginem a cena: Um mochileiro, com uma mochila de 75 litros nas costas, com uma de 35 litros no peito e com um violao no ombro, tremendo de frio, entra em uma pequena venda, onde estavam 4 pessoas do pequeno povoado com nao mais de 5 mil habitantes, perto das 2h da madrugada.

Os 4 entao se calaram me olharam, se entreolharam, e entao, com forte sotaque Cordobês, responderam ao meu cumprimento e com tato comecei a conversar com todos, conversa essa que se estendeu por um bom tempo. Um deles era um rapaz de uns 30 anos que junto com seu irmao era o dono do kiosco, e me disse, após eu afirmar que meu destino era Córdoba e nao a pequena cidade, e que nao continuaria a viagem naquele dia pois viajava de carona e era praticamente impossível que me levantassem a noite, que ele mesmo iria na manha seguinte a capital resolver uns assuntos particulares e me levaria se fosse do meu interesse. Rapidamente acertamos detalhes, ele se foi dormir e eu fiquei protegido do frio no kiosco, já descrente da falta de sorte. Na manha do dia seguinte finalmente cheguei a segunda maior cidade da Argentina, Córdoba, com seus cerca de 3 milhoes de habitantes e finalmente, fato que ha tempos nao ocorria, vi muita gente e movimento de verdade nas ruas.

Na primeira noite fiquei na casa de um rapaz de minha idade, professor de tango, que logo se animou com meu conhecimento em danças brasileiras e me apresentou pessoas, entre essas, Grillo, dono do Yoruba Dance Company. Aqui enfim chegamos a segunda parte do título da última postagem, lugar esse que foi o motivo da minha larga permanência em Córdoba. Eu, Pablo, Anahí, professora de ritmos brasileiros da escola e Grillo armamos rapidamente um workshop de Samba de Gafieira e Zouk para a sexta-feira seguinte, significando que ficaria muito tempo na cidade.

Enquanto eles se preocupavam em fazer a publicidade eu relaxaca, conhecia a cidade e preparava Anahí para me ajudar nas aulas. Foram 10 dias em Córdoba, dividindo os dias em maravilhosos, normais, entediantes e interessantes.

Já no segundo dia me mudei de casa. Me hospedei na casa de Ricardo, um advogado que trabalha de juiz numa cidade a 50km de Córdoba. Um belo apartamento, extremamente organizado. Completamentes diferentes, mas tendo em vista o grande respeito das duas partes a opiniao alheia, essa diferença, ao invés de se tornar um problema, se tornou motivo de grandes conversas e indagaçao e isso muito me alegrou. Ter a possibilidade de conhecer idéias e ideais distintos, pontos de vista de um outro país, outras formas de se viver, compartilhar a paixao de viajar, vividas de formas tao diferentes pelos dois interlocutores e outros mil assuntos mais, desde ocultismo até direito internacional, nao podendo deixar de citar a música, paixao também dividida pelas duas partes, tornaram partes dos dias nesta cidade interessantes.

Porém outra parte nao foi tao boa. A impossibilidade de gastar dinheiro e o excesso de tempo livre tornaram parte dos dias extremamente entediantes, e permiti que isso me prejudicasse. Confesso que poderia ter conehcido mais da cidade, entretanto estava cansado, no momento, de monumentos e praças, e se nao fosse para conhecer a vida cotidiana das pessoas da regiao, nao saia de casa, passando assim muitos momentos em casa, assistindo, por exemplo Caminho das Indias dublado em espanhol, aqui chamado de "India, Uma História de Amor". Incrédulo, ficava rindo sozinho a todo instante: é pior que novelas mexicanas dubladas em português.

Nao posso, todavia, apenas reclamar. Fui a baladas, teatros e milongas - bailes onde se dançam 3 estilos típicos argentinos: tango, milonga e vals - e o melhor, todos de graça. Dancei salsa em baladas até a exaustao, dancei tangos e milongas na Plaza San Martin, assisti a espetáculos impressionantes em lindos teatros, visitei igrejas e museus. Tudo isso tornou grande parte dos dias maravilhosamente agradáveis.

Creio que nao necessito falar sobre a normalidade dos dias normais.

Bom, sexta-feira enfim chegou, dei as aulas, fiz algum dinheiro, porém me enrolei para ir embora e fiquei até domingo de manha em Córdoba. Na própria sexta fui novamente a uma salsa onde me acabei de dançar novamente, e no sábado nao fiz nada de útil. Ao menos tive muita sorte na hora de sair da cidade. Ricardo me levou até a Ruta 9 que leva direto a Rosário, que era meu objetivo no momento e em menos de 10 minutos parou um carro que ia para Buenos Aires, ou seja, fiz os 400 km que separam as duas cidades somente com uma carona.

Agora estou num hostel em Rosário. Pela primeira vez na viagem gastando dinheiro com estadia, mas logo parto para Buenos Aires e enfim buscarei de fato um trabalho, torçam por mim!

Rosário é uma cidade linda e agradável, mas conto como foi por aqui na próxima postagem!! (Isso tá virando novela, rs!!!)

Um grande abraço a todos e muito obrigado pela força que têm me dado!

Andejo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De Sutracovi a Yoruba

Sindicato Único de Trabajadores de Concesionarias Viales y Afines. Com o nome desse sindicato, que tem como objetivo, em geral, proteger os trabalhadores de estaçoes de pedágios, inicío essa postagem. O porquê será dito em seu devido momento, e antes que este chegue, partamos de minha partida de Concepción del Uruguay.

Eu esperava ansiosamente pela chegada de José e Mariela na manha de terça-feira, mas nao foram eles que chegaram e sim a mae de José. Me disse que seu filho e sua nora iriam partir para outra viagem sem passar em casa, e disse que me levaria até a estrada onde eles passariam, para eu aproveitar a carona para seguir meu destino.

Apressadamente coloquei as coisas dentro da mochila e em menos de meia hora subia novamente no caminhao de José, desta vez a última. Consegui pegar algumas fotos com eles e viajei uns 60 Km em direçao a Córdoba, meu objetivo. A despedida foi bacana, demonstrando os dois lados que uma nova amizade havia sido construída. Sentirei saudades desse casal.

Isso é uma das muitas coisas difíceis que estrada nos proporciona. Encontro pessoas que salvam minha vida a todo instante, que me alimentam, arranjam-me abrigo em uma noite chuvosa, apresentam-me pais, esposas, filhos, amigos, vizinhos e cachorros. Nao mais do que em um momento se cria um forte vínculo emocional, paterno, fraterno; me acolhem em seu círculo mais íntimo e familiar. Porém em dias, horas ou apenas em minutos eu sigo caminhando, novamente perdido em pensamentos; e as despedidas... nao podem imaginar como sao dolorosas, como sao aquelas que dedicamos aos amigos mais próximos. Fico imaginando se um dia poderei reencontrar essas pessoas que me ajudaram sem esperar nada em troca, e tenho também a certeza que ficam eles, que me vêem partindo caminhando para longe, imaginando o que teria acontecido com aquele jovem andarilho.

Desci entao do caminhao, assim como qualquer pessoa desce do carro de um amigo depois de uma noite de festa e caminha em direçao a sua casa; a minha é negra, normalmente pintada com faixas amarelas ou brancas e a cada dia que acordo vejo pela janela uma paisagem diferente. E como saindo mais um dia pra trabalhar, subi em um Uno de um policial que viajava com sua mae. Em mais uma efêmera amizade, iniciada a partir do gosto em comum pela música, me convidou para almoçar em sua casa, em Tala, ainda na província de Entre Ríos. Comi como se estivesse em minha casa e entao Carlos, como era chamado o policial me levou novamente para a estrada, onde em pouco minutos fui levado por um caminhoneiro e sua esposa alguns quilômetros a frente onde constatei sinais que meus próximos momentos nao seriam fáceis, gotas começaram a cair do céu.

Quando a chuva veio de verdade me abriguei em uma cabine da polícia caminera, equivalente a nossa rodoviária, que jazia desocupada a beira da Ruta 39. Mas a chuva nao durou e logo subi noutro Focus até Vitória, última cidade entre os ríos Paraná e Uruguay. Apenas uma estrada concessionada me separava da Província de Santa Fé, porém me separou por mais tempo e de maneira completamente inusitada.

Outro caminhoneiro, este Cordobês, com sotaque muito distinto do que havia encontrado até aqui me levou de Vitória até a praça de pedágio da rodovia citada acima e como chegamos já durante a noite, nao consegui carona em direçao a Rosario. Estava agasalhado o máximo que podia, mas mesmo assim o vento passava congelando até minha alma, e para ajudar, voltou a chover, e nao parou mais. Me abriguei em baixo da praça de pedágio, onde estava acontecendo uma manifestaçao: os trabalhadores, filiados a Sutracovi, estavam em greve. As cancelas estavam todas abertas, os trabalhadores batucavam tambores e os motoristas passavam buzinando e eu ali, com fome, frio e sono, mas nao por muito tempo.

Um dos trabalhadores reparou naquele curioso garoto que tremia incessantemente e foi com ele trocar dois dedos de prosa. A prosa rendeu e o trabalhador, chamado Alexis, convidou o garoto a se juntar aos outros trabalhadores, que comiam um churrasquinho de frango, assim acabando com a fome que ele sentia, que tomavam vinho e fernet ao lado de uma fogueira, acabando assim com o frio que o cortava, e mais tarde, depois de muita festa, música e conversa, arranjaram também ao garoto um local abrigado para passar a noite, desejando-lhe um bom sono. Assim o foi, e o garoto, um andejo vadio perdido numa estrada argentina, fez novamente novas amizades.

Acordei no outro dia, sabendo que aquilo tudo podia nao ter passado de um sonho delirante de um desamparado, porém, sempre consciente, sabia que nao o era, e sim sabia que a sorte, que ditados sempre dizem que acompanha os aventureiros, nao tinha me excluído da lista de beneficiados. No outro dia café da manha seguido por um delicioso churrasco e discursos impressionantes sobre política seguiram por toda manha e parte da tarde. Um banho foi o divisor de águas.

Enquanto os trabalhadores se reuniam em uma assembléia fui tomar um delicioso banho quente. Quando sai do banheiro tudo estava diferente: o sol, escondido por densas nuvens a alguns dias estava de volta, tornando dispensáveis as blusas que usava, tambores nao mais tocavam, faixas de protesto nao mais podiam ser vistas e as cancelas voltaram a trabalhar, o protesto havia terminado e com ele minha estadia no meu Hotel Pedágio Vitória-Rosário. Fui convidado a ir a outro hotel, já que uma nova paralisaçao teria início no dia seguinte em outra praça, porém o norte da minha bússola apontava em outra direçao, Córdoba, cidade que chegaria no dia seguinte, e que estou no momento. Porém as histórias dessa cidade e de Yoruba ficam para uma próxima postagem.

To be continued...

Abraços,

Andejo.