O Andejo Vadio
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"I always wonder why birds choose to stay in the same place when they can fly anywhere on the Earth. Then I ask myself the same question."
(Harun Yahya)

sábado, 25 de junho de 2011

Buenos Dias, Caballeros

Mirador de las Aguilas - El Chaltén

Buenos días, caballeros. Señoras ¿Cómo les va? Fria manhã em Cerro Castillo, cidade localizada ao sul de Coyhaique, capital de Aisen, XI região do Chile. Estou de passagem por aqui, acompanhando um amigo que está visitando cada pequena vila entregando óculos de grau aos moradores, que dificilmente teriam acesso a esse tipo serviço se não fosse os esforços dos médicos que visitam cada rincón dessa isolada parte do sul do Chile, unida pela famosa, e mais impressionante do que se pode imaginar, Carretera Austral. É impressionante a formalidade deste povo que sempre trata às outras pessoas através de Don ou Señora. Imagina só, Don Demente – outro dia conto a história deste apelido, ou descubram por si só! Mas todas essas são histórias para mais tarde e que virão com muitas outras em uma semana que promete ser das mais agitadas neste blog. Se não querem se perder, estejam atentos! Buscando um mínimo de coesão, sigo em ordem cronológica e por isso, ainda falta explicar-lhes como cheguei aqui e como foram os desanimados dias que precederam o retorno da paixão que tinha pela estrada no começo desta história.
...

Após resolver todos os trâmites pendentes que diziam respeito ao capotamento, gastei mais alguns dias na cidade. Encontrei no mercado um brasileiro que havia conhecido no trekking para a base das Torres del Paine, e convidei-o para jantar conosco, no que seria o jantar de despedida das meninas, ao mesmo tempo que seria um jantar com especial significado religioso para a judia francesa. Depois disso, a busca por um bar para uma merecida e necessária cerveja.


No dia seguinte houve uma festa em comemoração ao centenário de Puerto Natales, que muito se pareceu a um carnaval de rua no Brasil, com carros alegóricos que muito - ou pouco, em alguns casos – tinham a ver com a cultura local. Para somar, havia ainda diversas bancas de comidas típicas locais e provamos diferentes tipos de choripan (pão com linguiça), empanadas e tortas fritas.

Enfim deixei a cidade, mas, enrolado como sou, somente comecei a pedir carona às 18 horas, já escuro nessa região. Por sorte, o primeiro carro que passou me levou até Cerro Castillo – outra cidade de mesmo nome que a atual, só que muito mais ao sul – e neste lugar cruzei a fronteira. Problemas: a fronteira argentina fica a 7 km de distância da aduana chilena, e em todo o dia passou somente um carro por ali, ou seja, tive que caminhar. A princípio caminhei com a luz da lanterna, mas depois caminhei na completa escuridão da noite sem lua, até alcançar a aduana argentina. Desde aí teria 6 km mais até a ruta 40, estrada que liga a Argentina de norte a sul, entretanto, não encontraria nada mais que asfalto e grama a menos de 60 km. Portanto, conversando com os militares da Gendarmeria, oficiais responsáveis pelas fronteiras, consegui um lugar para passar a noite ali mesmo.

Era a antiga sede do passo fronteiriço, que agora, abandonado, contava com vários cômodos vazios, algumas peles de carneiro jogadas pelos cantos e uma cama velha com um colchão que não estava em tão mal estado. Dormi maravilhosamente bem após tomar uma sopa quentinha, bem aquecido dentro do saco de dormir, acordando somente com a luz do sol, às 10 horas da manhã! Levantei-me e caminhei os 6 km restantes até a estrada. Em alguns momentos fui acuado por imensos rebanhos de vacas que me olhavam ameaçadoramente e mugiam em conjunto, aparentemente com o objetivo de amedrontar um possível predador, o que fizeram com extremo sucesso – os bezerros e as vacas mugiam enquanto se apressavam em se afastar, enquanto os touros com seus grandes chifres levantavam a cabeça e se viravam em minha direção, dando a sensação de que em qualquer momento, ou movimento em falso que eu desse, partiriam correndo em minha direção. Quem será que correria mais rápido: o touro enfurecido ou eu com minha tralha que totaliza 30 kg?

Felizmente cheguei a salvo à ruta 40, sem que nenhum touro sacana tirasse minha vida e aí esperei algumas poucas horas até conseguir uma carona direta a El Calafate, o que certamente foi um golpe de sorte! Algumas horas de viagem e eu entrava na linda pequena cidade, casa de pouco mais de 17 mil pessoas, e caminhando sem destino encontrei o hostel mais barato que conheci em minha vida, 25 pesos argentinos por noite, sendo a terceira noite grátis – totalizava cerca de 6 reais por noite – com café da manhã e wi-fi.

Passei bastante tempo neste hostel, num misto de preguiça e desânimo de seguir, acredito que quase 20 dias, e nesse tempo conheci alguns personagens: Eduardo, o dono do hostel, é uma boa pessoa, mas com uma personalidade difícil, como descobri ao final. Joel e Raul, dois moradores do lugar provenientes de Missiones, a província mais ao norte da Argentina, onde está a parte argentina das Cataratas do Iguaçú, são simples e confiáveis. Pablo e Sol, que saíram juntos de Ushuaia e fizeram a primeira parada de uma viagem, que como a minha, não tem data para terminar e, por fim, Ana, Tássia, Tamires e Marcela, quatro garotas brasileiras que faziam turismo na região junto com uma francesa, duas suíças e um sueco.

No segundo dia em El Calafate, tentei sem sucesso ir de carona ao glaciar e no terceiro dia, em teoria meu último na cidade, resolvi pagar pelo transporte. Valeu cada centavo. Depois de ver tantas belezas, pensei que, por mais que sempre apreciasse lindas paisagens, não iria me surpreender tanto novamente. Que ingenuidade. Um glaciar de 5 km de largura na parte frontal, formando uma parede de até 60 metros de altura e 200 km de extensão, surpreendeu-me de forma surpreendente, e tirei mais fotos do que um japonês tiraria, mas ainda sem obter êxito na tentativa de demonstrar o que meus olhos viam. Blocos imensos de gelo se desprendiam da imensa parede e caiam no lago formado somente a partir do degelo natural do glaciar, fazendo ruídos muito altos e calando as vozes dos turistas distraídos, roubando toda a atenção pelos segundos que durassem a reverberação. Conheci um inglês e compartimos o que tínhamos para comer – ele, uns pães que roubou de seu hostel no café da manhã, eu, duas cenouras!





Cheguei à cidade com o objetivo apenas de conhecer o Glaciar Perito Moreno e logo seguir viagem, mas fui ficando um dia a mais e mais um dia depois desse, e assim a cada vez e fui fazendo amizades. O primeiro foi o dono do hostel e logo lhe perguntei se tinha já uma página na internet e, recebendo uma resposta negativa, propus-me a fazer um blog. Entretido com os afazeres, fiquei uns dias mais e por isso conheci a Pablo e Sol, duas pessoas incríveis que saíram para viajar sem data para terminar. Eles também ficaram mais dias que o previsto e assim fizemos uma grande amizade. Pablo tem exatamente minha idade e é um artista. Malabarista, artesão e massagista, usa seus diversos conhecimentos para poder viajar, desde trabalhar de branco em um hotel massageando madames, até se sujar todo de fuligem enquanto está fazendo malabares com fogo no sinal. Sol é um pouco mais nova e está agora aprendendo também as profissões de Pablo – adorei ser cobaia nas aulas de massagem!


Logo que Pablo e Sol se foram, preparava-me também para enfim deixar a cidade, quando chegaram as brasileiras e seus amigos. Como é bom cantar uma canção e pelo menos uma pessoa conhecer a música! Matei a saudade de falar português e sentir a energia do povo brasileiro foi revigorante. Sem contar que poder desfrutar da culinária mineira estando tão longe dessa terra é maravilhoso! Eduardo então me fez uma proposta: convidar as garotas a ir a El Chaltén, uma pequena cidade próxima, em uma excursão e me daria uma porcentagem do valor arrecadado. Pareceu-me fantástico, visto que eu queria conhecer a cidade e não tinha grana para isso. Ir de graça já estava bom, ganhar para ir, melhor ainda. Conversei com as garotas e elas ficaram de pensar já que teriam voo marcado e não teria tempo suficiente, entretanto, como o vulcão no Chile estava ativo cobrindo os céus argentinos de cinzas, poderiam não embarcar e assim pensar na possibilidade.

Descobri por Eduardo, dias depois que o voo realmente havia sido cancelado e que as garotas iriam realmente para El Chaltén com ele, e ele me disse para ir junto. Embarquei contente, por que, por mais que eu imaginasse que não ganharia nada por não haver sido eu quem fechou afinal o negócio, ao menos iria também sem pagar e, no dia seguinte, embarcamos à mais nova cidadezinha da Argentina. Fizemos um lindo trekking nas montanhas que levavam a um dos pontos de observação do Fitz Roy, imponente montanha argentina, mas que infelizmente não pudemos vê-la desde aí, já que o tempo estava fechado além de bastante nevada – alguns caminhos inclusive congelados, que, na volta, eu e Tibo, o suéco, deslizávamos usando-os como tobogã. Tibo se foi nesse mesmo dia, e passamos uma noite, eu e as sete garotas, num quarto contando historias de terror! Devo enforcar-me se digo que não aconteceu nada? Quando digo que sou um santo não acreditam!












Voltamos a El Calafate e no dia seguinte as garotas se foram em ônibus a Buenos Aires porque os aeroportos continuavam fechados. Depois que partiram, fui arrumar minhas coisas e acertar as contas. Perguntei a Eduardo quanto lhe devia e me disse 150 pesos por 9 noites. Confundi-me e lhe disse que já havia pagado 100 pesos – o que realmente havia feito, mas que correspondiam a noites anteriores as que se referia ele – o que logo depois ele esclareceu e eu concordei, estando ele, de fato, certo. Ele me havia também emprestado 200 pesos na viagem, para não nos atrasarmos passando no banco, e afirmou que essa quantia eu não precisava lhe devolver, e assim como os 25 pesos da noite que passamos em El Chaltén, em uma das cabanas de seu filho, ficando esse valor como pagamento por haver convidado as garotas, como ele me havia prometido. Disse-lhe que não precisava, visto que eu não tinha feito muito ao final, porém ele insistiu e eu aceitei. Pediu-me também para colocar um preço no blog, o que recusei alegando que não havia feito pensando em cobrar, e, dada sua insistência, disse-lhe que pagasse o que lhe parecia justo. Novamente recusou.

Sem ter ideia do que valia o blog, não sabendo assim o que cobrar, perguntei a um amigo que trabalha com isso na Argentina, quanto ele cobraria para fazer o mesmo serviço, mostrando-lhe o blog. Respondeu-me que não menos de mil pesos. Decidi então, cobrar a metade de Eduardo, que descontando o que teria eu que pagá-lo pelos dias de hospedagem, me pagaria cerca de 350 pesos, ou, 140 reais. Contente por recuperar todo o dinheiro que havia gasto nesses dias na cidade, fui conversar com Eduardo, começando a lhe explicar o que meu amigo me havia dito, e quando lhe disse que o blog valia mil pesos, se alterou e me deu as costas, não esperando nem eu lhe falar que lhe cobraria apenas a metade disso. Disse-me que lhe haviam oferecido fazer um site profissional por esse preço, sem, em nenhum momento, deixar-me explicar que lhe cobraria a metade. Ofendido, perguntei-lhe quanto achava que valia e ele novamente disse que era eu quem deveria colocar o preço. Já bastante chateado, disse-lhe que apenas trocaríamos o blog pelos dias estadia que me faltavam pagar e fui dormir.

No outro dia decidi algo distinto, que apagaria o blog, que por sinal havia demorado muito para fazer, e que lhe pagaria o que lhe devia, já que agora ele considerava ruim o blog que tanto havia elogiado. Pedi para conversar em particular e ele negou, e ao explicar-lhe, em frente a Raul, meus motivos para tal decisão, dizendo-lhe que me havia ofendido com suas afirmações e tom de voz, novamente não me deixou terminar, dizendo que era eu quem lhe havia causado uma grave ofensa, ao tentar roubar-lhe dinheiro, quando tentei de forma intencional, segundo ele, enganá-lo, dizendo que já lhe havia pagado parte de minha estadia quando na verdade não o havia feito. Sem palavras e, agora sim ofendido de verdade tentei em vão argumentar, mas, como já era de praxe, não escutou uma só palavra. Engoli em seco tentando me acalmar. Busquei minhas coisas e lhe dei 200 pesos, todo o dinheiro que tinha em minha carteira e escutei de forma surpreendente: e a viagem a El Chaltén, você não pensa em pagar? Com lágrimas nos olhos e sem um peso comigo para ao menos pagar-lhe por orgulho, despedi-me de Joel e Raul, levando de El Calafate, além das boas experiências, dos dias de desânimo e das lindas paisagens, a primeira acusação de roubo de minha vida.

Caminhei vários quilômetros chorando; por meu nome, pelas falsas acusações, pelos nervos, pela saudade, por toda carga que vinha carregando, segurando minhas emoções nos últimos tempos, desde que ficamos sem bateria no parque, mais tarde tratando de acalmar as garotas após capotar, colocando-me também como reconciliador após elas discutirem no alto da montanha ou após pagar por um seguro mais do que gasto em dois meses de viagem.

Mesmo não tendo feito nada do que havia sido acusado, pedi a Eduardo perdão pelas ofensas que lhe havia causado e escutei: “O que fez não tem perdão, conheci vários brasileiros e você foi o primeiro mau-caráter. Ainda mais depois de tudo que fiz por você.” Basicamente, depois de humilhar-me, buscando a humildade que manda a sabedoria, fui pisado. Mas no caminho, saindo da cidade, mesmo muito chateado e ofendido, percebi que mesmo que ele não tenha pedido perdão, ou mesmo que ele não tenha ao menos consciência das ofensas que me causou, senti pena, e lhe perdoei. Hoje, tenho a impressão que mais triste que ser ofendido, é ofender, é fazer acusações vazias, ou julgar baseando-se em falsas premissas ou apenas em impressões de uma realidade que na verdade não existe.

Percebi que a melhor forma de ficar bem comigo mesmo não era através da raiva, da mágoa, da ira e decidi, não somente deixar o blog no ar, mas também terminá-lo, melhorá-lo, além de, não importando o que é justo e aceitando o julgamento de quem se considera juiz, encontrar uma forma de pagá-lo pela viagem a El Chaltén.

Quantas coisas aconteceram nesse curto período. Levo dessa parte do mundo muitas lembranças, boas e más. Vivi ali o único período em 18 meses que pensei em desistir e voltar ao velho mundo em que vivia. Vivi meu primeiro acidente de carro. Conheci pessoas fantásticas e vivenciei com elas coisas que nos conectarão, independente de nossas vontades, pelo resto da vida. Como vou esquecer-me da expressão do rosto de minha nova amiga alemã, instantes depois de capotar o carro, ainda flutuando, pendurado pelo cinto de segurança? Como vou esquecer o fato de haver sido acusado de roubo, poucos momentos depois de ter sido chamado de quadrado por uma amiga, após a reprimir por haver cometido um pequeno roubo, a seu ver, sem importância?


Mas, sem dúvida, vou levar dessa inesquecível região de paisagens únicas, um grande aprendizado. Afinal, não é isso que venho sempre buscando?

Um grande abraço a todos,

Andejo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Meus Melhores Piores Dias...

Torres del Paine

Cada dia mais difícil fechar a mala e seguir viagem, deixei Punta Arenas rumo à Puerto Natales e em pouco mais de 3 horas de estrada alcancei meu novo destino e logo fui em busca do hostel Erratic Rock, no qual me receberia Bill, mais um amigo de minha prima Sheila, que também foi a responsável pela minha cômoda estadia na casa dos grandes Dusan e Anahí, mas, antes de encontrá-lo fui abordado na deserta rua principal da pequena cidade. Três garotas, Maria, espanhola, Susanne, alemã e Shoshana, francesa me pararam na rua, cerca de onze da noite e a primeira coisa que falaram foi: "Que vai fazer amanhã?"  

Conversamos e, em pouco tempo, convenceram-me a alugar um carro com elas para juntos irmos ao parque Torres del Paine na manhã seguinte - dividir o aluguel era vantajoso para elas e para mim, afinal sairia mais barato pagar 1/4 do carro do que pagar uma excursão e combinamos de nos encontrar na manhã seguinte - e então me acompanharam ao hostel. As três são intercambistas que estão estudando em Santiago, e estão matando aula para fazer uma viagem de despedida para Susanne que irá voltar a Alemanha em pouco tempo.

Bill, um personagem. Americano nascido no estado do Oregon, decidiu, depois de viajar e morar em diversos lugares do mundo, abrir um hostel nessa pequena cidade que vive do grande movimento turístico gerado por Torres del Paine, considerado um dos parques nacionais mais bonitos do continente sulamericano. É responsável por receber turistas e mochileiros do mundo todo e o faz com seu espanhol com forte sotaque estrangeiro. Cara vivido, tranquilo e muito boa gente que me recebeu como família.

Carro Alugado

Guanaco, visto em toda patagônia.


O dia seguinte amanheceu ensolarado, tempo propício para visitar o parque. Pegamos o carro, conseguimos até um bom desconto, compramos comida, afinal decidimos passar uma noite no parque e pegamos a estrada. Duas horas foram suficientes para chegar e na primeira fascinante paisagem paramos para tirar algumas fotos. Parada rápida, não mais de 15 minutos, e voltamos correndo para o carro para fugir do frio, mas o carro não pegou - a bateria estava morta. Descemos com o carro desligado por um pequeno vale até perto de um rio onde havia uma bifurcação e decidimos esperar ali por ajuda, entretanto ela não veio e ali tivemos que passar a noite. Conversamos, dançamos, comemos, caminhamos no escuro - longas noites de inverno na patagônia austral - tocamos violão, contamos estrelas e tudo mais o que podíamos fazer para passar o tempo.  Quando o frio se tornou insuportável, entramos todos no carro e organizamos tudo para estar o mais confortável possível - levantamos os bancos, empilhamos as mochilas, forramos o piso -  e conseguimos alcançar ao menos a categoria "muito desconfortável".

Sem bateria.

Em um momento de introspecção comecei a pensar como havia chegado ali, o que fazia ali e como são loucas as coisas que as viagens me proporcionam. Em uma noite estava em uma casa confortável em momentos preguiçosos na companhia de dois calmos chilenos, e na noite seguinte, dormindo num carro alugado, sem bateria, no meio de um dos mais extensos parques nacionais que existe com três loucas europeias. Essas mudanças bruscas de realidade são como uma história sem coesão e tenho muitas vezes a impressão que atravessei um túnel e saí em outra realidade.

Dormi no encosto dobrado do banco, mas não mais desconfortável que as garotas que se espremeram em outras partes do carro - sempre tinha um cotovelo na cara de alguém, ou quem sabe um joelho nas costas e quando necessitávamos nos esticar tínhamos que fazer uns por cima dos outros - e como era de se esperar não foi a noite de sono mais restauradora do mundo. Pela manhã não encontramos sinais de que alguém houvesse passado por ali e decidimos que deveríamos buscar ajuda. Escrevemos um bilhete dizendo aonde iríamos, deixamos no carro e seguímos caminhando à Laguna Azul com esperanças de encontrar alguém que pudesse nos auxiliar. Caminhamos algumas horas e encontramos um guarda parque que chamou a locadora de veículos e convidou-nos a esperar aquecidos dentro de sua casa até que chegasse o socorro.


Outro tipo interessante. Um ano mais velho que eu, Rafael cresceu no parque, na companhia de outras cinco crianças. Depois de se casar, mudou-se para a cidade, mas essa mudança não lhe fez bem, arruinou seu casamento e então voltou ao parque, onde passa vários dias isolado e estranhamente se sente melhor aí que em seus poucos dias de folga quando desce à pequena Puerto Natales. 

Shoshana, Susanne, eu e Maria

Na metade da tarde o socorro chegou e ficamos indignados em, além de ter perdido quase dois dias, ainda ter que pagar pelo conserto do carro. Discutimos e chegamos há um acordo aceitável, ficaríamos uma noite mais no parque, mas perdemos uma integrante, Shoshana, que decidiu voltar a Natales e não subir, no dia seguinte, até as base das Torres em um trekking de 8 horas, ida e volta. Voltamos à Laguna Azul e fomos convidados por Rafael a dormir em sua casa, o que nos salvou de outra dura noite de frio e desconforto. Ainda nos convidou a jantar e nos preparou uma fantástica comida caseira, contrabalanceando a má sorte anterior.

Anoitecer em Laguna Azul.

Felizes por finalmente estar perto de subir ao mirante, nos despedimos do guarda parque na manhã seguinte e  subimos no carro torcendo pra que pegasse. Pegou. Fui dirigindo me divertindo provando a tração das 4 rodas nos buracos cheios de água e gelo das estradas de terra e pedras no interior do parque até que paramos novamente para tirar outras fotos mais. 

Pré acidente.

Não, felizmente não ficamos novamente sem bateria. Perguntei a Susanne se queria dirigir e ela aceitou. Após uma curva em declive, passamos por muitos buracos consecutivos, ela perdeu o controle e saímos da estrada. Em meio a gritos - tudo aconteceu muito rápido - ela voltou a girar o volante na direção contrária para voltarmos ao curso correto, mas o carro rodou e capotou. Susanne e Maria tiveram um ataque nervoso, e enquanto Susanne ameaçava chorar com uma cara muito assustada, Maria ria sem parar. Eu, flutuando preso pelo cinto de segurança, agradecia por haver pedido para Maria colocar também o cinto no banco de trás e pedia para Susanne acalmar-se e desligar o carro, já que vazavam óleo e combustível. Ninguém teve sequer um corte e saímos todos pelo teto solar do veículo que estava deitado na estrada. Maria, já muito mais calma me ajudava a tentar a acalmar Susanne, que ainda estava muito nervosa e se culpava pelo que aconteceu enquanto dizíamos que havia sido um acidente, que poderia haver passado a qualquer pessoa. Poucos instantes depois, uma caminhonete com um funcionário de um hotel da região passou por ali e nos ajudou a desvirar o carro. Os pneus estavam destruídos, assim como um dos retrovisores, além do combustível e do óleo que vazou, e não poderíamos continuar, não com o automóvel.

Susanne. Momentos pós-acidente.
Desvirando o carro.
Low Battery and Fucked

Em uma rápida reunião para avaliar a desastrosa viagem ao parque que possui corretamente a fama de ser inesquecível, ponderamos todo o dinheiro que teríamos que pagar pelos danos, MUITO, e tudo que havíamos visto do parque, NADA. Creio que é importante comentar que Susanne queria se responsabilizar sozinha pelos custos, mas eu e Maria rechaçamos imediatamente a ideia, afinal todos nos responsabilizamos quando decidimos alugar juntos o carro. Nesse momento chegamos somente a um consenso, subiríamos ao mirante do mesmo jeito, como uma última tentativa desesperada de fazer essa viagem valer a pena. Pedimos então ao senhor que nos ajudou que chamasse novamente à locadora de veículos e avisasse sobre o acidente e pedimos que nos viessem buscar às 7 horas da noite, horário que já deveríamos haver voltado ao hotel onde começa a trilha.

Hotel Las Torres
Começando a subida.

Começamos a subir, e subir, e subir, e a cada instante tinha a impressão que não voltaríamos a tempo, mesmo assim continuamos. Fizemos a primeira parte em um tempo inferior ao estipulado e isso nos motivou a seguir, combinamos de caminhar até o próximo acampamento e então reavaliar o tempo restante para saber se subiríamos ou não até o mirante. Novamente fizemos em menos tempo do que pensávamos, mas da mesma forma não sobrava muito tempo. Susanne queria voltar, Maria queria seguir. Eu queria seguir mas achava que tínhamos que voltar. Decidimos subir apenas um pouco a parte mais íngreme onde pararíamos para comer com uma visão um pouco melhor das Torres, que já pareciam tão próximas. 

Entretanto, quando começamos a subir, Maria decidiu seguir e Susanne se revoltou, acusando Maria de egoísmo, e as duas começaram a discutir. Depois da discussão Susanne começou a subir mais rápido, enraivecida e com o objetivo de ficar sozinha, e Maria, observando sua reação, decidiu que não tinha mais vontade de subir porque não estaríamos todos felizes lá em cima. Por que as mulheres são tão complicadas? Conversei com Maria, e depois com Susanne e elas voltaram a ter uma conversa onde pareciam haver ajustado as coisas, ao menos parcialmente e seguímos a subida. Para ajudar, o caminho piorava a cada vez, com gelo e muita neve cobrindo todas as pedras, não nos permitindo portanto, saber onde pisávamos, o que nos atrasava ainda mais. 

Terminando a subida.

Ao avistar um trecho que parecia bastante difícil, ao mesmo tempo que não avistava o final da trilha, pedi para que esperassem que eu verificasse o caminho e se parecesse muito difícil, voltaríamos daquele ponto. Caminhei apressadamente na neve, saltando pelas rochas quando possível e em não mais de 5 minutos cheguei ao final da trilha. Nem olhei a paisagem e assim como fui, voltei até onde tinha deixado as garotas. Com minha afirmativa, seguímos e pouco depois chegamos enfim ao "Mirador de las Torres" e pela primeira vez desfrutei uma linda paisagem no alto de uma montanha acompanhado de alguém. 


Nesse momento, esquecemos dos problemas, dos conflitos e sentimos que não importava as dificuldades que havíamos passado, sentíamos que havia valido a pena. Uma linda lagoa de águas de um azul-esverdeado intenso, cercado de montanhas nevadas, contrastando com o azul do céu que poucas nuvem tinha, tendo como protagonistas as três torres que dão nome ao parque que justifica a visita de milhares de visitantes a essa erma parte do planeta, um pedaço do chile isolado do mundo, onde a natureza é respeitada e preservada e é capaz de fascinar qualquer pessoa, não importando o que haja visto ou provado anteriormente, dada sua magnitude.


Ao descrever essa cena, as imagens e sentimentos voltam à cabeça e me sinto cansado em lembrar que ainda teríamos que percorrer novamente todo o caminho. Com pouco tempo, visto que o sol já estava baixo, começamos a caminhar. Nas partes mais fáceis comumente corríamos e voltamos incrivelmente rápido até o seguinte acampamento, e com cada vez menos luz, já tivemos que acender as lanternas para percorrer a última parte. Aos poucos o céu enegrecia e, uma por uma, saltavam as estrelas na noite sem lua. Estávamos indo bem, chegaríamos no horário. Enfim terminamos o trekking, chegamos à planície, entretanto, na parte mais fácil do percurso, nos perdemos pela completa falta de visibilidade, e depois de diminuir quase pela metade o tempo estimado de descida, perdemos cerca de 1 hora e meia em um caminho que deveria tardar não mais de 10 minutos e ao chegarmos ao hotel, o socorro já havia partido com todas as nossas coisas, deixando-nos somente com a roupa do corpo e nenhum equipamento. Pedimos abrigo no hotel e nos deram uma refeição que nesse momento parecia um banquete, arroz com ovo e salsicha, além de nos darem também um lugar quente para dormir, que foi um dos quartos de empregados, já que o hotel estava fechado. 

Enfim, no dia seguinte, com duas caronas, voltamos a Puerto Natales. Fomos à locadora e pagamos os prejuízos. Tenho quase certeza que nos cobrou mais do que deveríamos pagar, mas nenhum de nós estava disposto a ficar na cidade para verificar nossos direitos e afinal, tivemos que pagar menos do que imaginávamos, por mas que tenhamos pagado muito. Pra quem já estava no limite dos gastos esse foi um duro golpe, entretanto não me sinto no direito de reclamar. Em um ano e meio de viagem, posso dizer que essa foi a única coisa ruim que me aconteceu, e os prejuízos foram somente financeiros. Além de mais uma inesquecível história pra contar para os meus sobrinhos quando eu voltar, posso dizer que fiz amizades pra toda a vida, que independente das diferenças das pessoas que estiveram ali dentro do carro nesse dia, e que depois subiram juntos essa montanha, estreitamos e embasamos um laço de amizade, confiança, solidariedade e respeito mútuo. Tenho certeza que quando olhar o passado, lembrarei dessas pessoas com admiração, que é a base de oitenta por cento de minhas amizades. Posso dizer então, quem sabe, que esses foram os melhores piores dias dessa viagem que completa hoje 18 meses.  

Neste momento estou em El Calafate, passei 15 dias aqui. Visitei também El Chaltén. Mas essas são histórias pra uma próxima postagem, afinal, tanto isso que contei hoje, quanto o que vivi nos últimos dias, merecem atenção especial e capítulos diferentes. Amanhã devo seguir ao norte, enfim em direção à Carretera Austral, a famosa estrada no inóspito sul chileno construída por Pinochet, espero não ter problemas com o vulcão...

Grande abraço,

Andejo.

domingo, 22 de maio de 2011

Expedição ao Fim do Mundo




É sempre difícil saber que título colocar em um texto e normalmente deixo isso pro final, extraindo do próprio corpo, sua cabeça. Dessa vez, inverti a ordem dos acontecimentos: comecei pelo título. Um título que já tinha guardado há muito tempo e que tinha um sabor todo especial, carregado de sentimento, que se aflorou no momento em que escrevi essa seqüência de palavras no espaço destinado à dar nome a um conto de fadas. Minhas mãos suadas começaram a tremer. Não podia identificar se meu peito iria explodir ou implodir e em minha cabeça, ao invés de palavras, lembranças.

Essa história começou muito antes de maio de 2011, sendo imaginada desde os primórdios de minha adolescência no ano 2000, quando comecei a sentir que o mundo me chamava a descobri-lo, e a ser escrita quando caiu a primeira gota de tinta no papel em 26 de julho de 2007, quando senti enfim que o momento havia chegado. Nesse dia, impetuosamente avisei meus pais; no dia seguinte deixei o trabalho e entreguei meu apartamento, e no terceiro, 28 de julho, liguei para meu amigo, Danilo e lhe disse: "Dae velinho! Lembra que eu te disse que um dia eu saberia que chegou a hora de viajar? Então, esse dia chegou, estou indo agora mesmo."

Com minha grande mochila já dentro do carro dos meus pais que com os olhos molhados me levariam à estrada onde arriscaria minha primeira carona, encontrei o Paquito, apelido do Danilo, na frente do Shopping Curitiba que incréculo me perguntava: "Está falando sério cara?  Caramba, sua mochila já está no carro? Putz, é um Demente mesmo! Boa sorte carinha!" - Lembra Danilo? Foi realmente assim ou minha imaginação estra distorcendo as coisas? - E assim a minha primeira carona, a dos meus pais até a beira da estrada - que ao final me levaram até o litoral onde tomei a balsa para a Ilha do Mel - se transformou no primeiro capítulo da história que hoje lhes conto.

Bom, hoje eu lhes conto um capítulo mais avançado da história da minha vida, da história sobre o que faço, da história sobre o que sou, e esse capítulo começa no dia em que desci das Montanhas de Bolson.

O interessante das viagens é que nossa vida se transforma em um filme de Hollywood, daqueles que damos risada e debochamos da inacreditável e inverossímil sucessão de desafios que os protagonistas tem que enfrentar. Não que eu esteja cercado de aventura e de mulheres bonitas lutando por minha vida - tenho que assumir que alguns dos desafios são altamente entediantes e nada interessantes  - mas mesmo assim, esses desafios têm que ser superados. No caso, cruzar o sul argentino de oeste a leste, através dos 822 km de estradas quase desertas que separam a cidade andina de El Bolsón e a cidade costeira de Puerto Madryn. 

Depois de uma bela caminhada matinal, dessa vez com todo o peso da mochila, começei a saga ao fim do mundo, com escala no paraíso das baleias. Com algumas caronas rápidas cheguei a pequena cidade de Tecka, perdida no meio do cenário desértico que tanto encontrei no sul argentino. Neste local, fiquei por várias horas esperando em vão por alguém que me levasse rumo ao oriente. Com receio às baixas temperaturas, caminhei até o único posto de gasolina da cidade para me abrigar em seu interior e ali, por sorte, encontrei um caminhoneiro que passaria por Puerto Madryn no dia seguinte, perfeito! Paramos para dormir em uma cidade ainda menor chamada Los Altares e combinamos que as 4 e meia da manhã seguiríamos viagem, fui então buscar um local para dormir. Encontrei um depósito aparentemente abandonado e imaginei que até as quatro da manhã ninguém me encontraria ali, até porque a escuridão do local não permitiria visualizar meu saco de dormir jogado em um dos cantos, e assim aconteceu. Tremendo de frio e com dor nas mãos, fato corriqueiro nesses dias frios, guardei meus equipamentos e reordenei a mochila e pouco antes da hora combinada fui buscar o caminhão, e não o encontrei. Xingando até a 4ª geração do caminhoneiro - ascendente e descendente - que além de haver me deixado para trás, fez-me levantar num frio extremo às 4 da manhã, fui novamente para o meu discreto canto onde esperaria amanhecer.

Fui supreendido por um surpreso frentista que me viu com a fraca luz de seu isqueiro, e assustado deixou o depósito enquanto me fingia de morto, completamente fechado e imóvel dentro do saco de dormir - tinha certeza que voltaria em pouco tempo com a polícia, rs! Isso não aconteceu e poucas horas depois seguia de carro a Trelew, onde tomei um ônibus para percorrer os poucos quilômetros restantes até a cidade lar de Adrian, que me recebeu em sua casa pelos dias que estive em Puerto Madryn.

Importante cidade às portas da Península de Valdez, berçário de centenas de baleias francas e casa de colônias de lobos marinhos, orcas e golfinhos, possui um cenário composto por areia e vegetação baixa - árvores não conseguem desenvolver-se pela força dos constantes ventos que assolam o lugar. Há na cidade um pequeno e extremamente bem cuidado museu de história dos povos nativos e de ciências marinhas que possui um interessante exemplar de lula gigante. Próximo objetivo: Ushuaia.

Como era de se esperar, o caminho para o Fim do Mundo não podia ser curto, e demorei 3 dias para percorrê-lo. Com distintas caronas passei por cidades petroleiras como Comodoro Rivadavia e Caleta Olivia passando mais tarde uma noite em Fitz Roy, para mais tarde viajar por mais um dia completo até Rio Gallegos, onde passei uma incômoda noite na loja de conveniência de um posto, o que me foi conveniente, visto que aí pude encontrar alguén que me levasse a Rio Grande, a somente 200 km de Ushuaia. Entretanto a sorte não durou tanto.

Quando chegamos à fronteira chilena, o generoso caminhoneiro, marido de duas mulheres, teve problemas com os papéis - da carga e não dos casamentos - e teve que voltar a última cidade argentina antes da terra do fogo, deixando-me assim ali na fronteira para tentar a sorte. Com duas caronas mais cheguei ao anoitecer a Rio Grande, e já cansado e atrasado em 2 dias, tomei um ônibus até Ushuaia, chegando um pouco depois da meia noite à cidade mais austral do continente. Fui recebido desta vez por Valentin, um guia turístico morador da ilha. Novamente Couch Surfing me ajudou a conseguir abrigo nas congeladas terras do extremo sul, a somente 1000 km do continente antártico.

Um de meus mais grandes sonhos e objetivos finalmente cumprido, depois de vários anos, vários desafios, tristezas e felicidades, desde aquele inverno em 2007 quando saí das rodas de socialização forçada com nada mais que 130 reais no bolso. Por mais que Ushuaia seja o fim do mundo, não significa que para mim seja um fim, mas com certeza é um marco, uma vitória, uma prova, para mim mesmo, de que eu fui e sou capaz de realizar os loucos planos, inacreditados e repreendidos por toda uma sociedade, que nada mais eram do que sonhos infantis.

Falando agora de maneira prática e objetiva, foram 17 meses para chegar aqui, vividos de maneira completa. Toquei o fundo do mar, aprendi palavras em hebraico, caminhei sozinho por montanhas nevadas, acariciei tigres, fui tatuado por cerca de 8 horas consecutivas e vi o colorido do nascer e pôr-do-sol em diferentes latitudes. Vaguei por horas em estradas desertas tendo o horizonte como única companhia. Vi o céu mais estrelado já visto em uma noite no alto dos Andes e transformei o espanhol em meu idioma oficial. Toquei violão em bares da patagônia estragando músicas de Chico Buarque, Toquinho e Tom Jobim. Fiz amizades sinceras e para toda uma vida.

Entretanto nem tudo é lindo. Sou a causa de incontáveis lágrimas escorrendo pelos olhos de minha mãe, de noites despertas de meu pai. Encontrei o cachorro de minha infância ainda quente e de olhos abertos estirado imóvel no chão. Perdi as primeiras palavras e passos de meus sobrinhos que crescem velozmente e o que mais me doeu, despedi-me de minha última avó, que nos deixou em setembro do ano passado.

Porém o sonho ainda não acabou. Apenas vou deixar de ser do contra e vou enfim seguir para onde a bússola aponta e transformar em realidade o que trato de imaginar a cada noite. Escrevo neste momento de uma nevada Punta Arenas, capital da última região chilena, onde passei uma semana em companhia de novos velhos amigos, Anahi e Dusan, mas o que segue agora? Torres del Paine, Carretera Austral, Isla de Chiloé, Deserto do Atacama, Salar de Uyuni, Machu Picchu. Ver o sol se pôr sobre o mar do Pacífico, conhecer as praias do Caribe, ouvir um reggae na  Jamaica e dançar uma salsa em Cuba. Descobrir os segredos do holandês falado no Suriname e quem sabe conhecer a base de lançamento européia na Guiana Francesa. Ao contrário, o sonho está só começando e eu acabei de ser aprovado no primeiro semestre da universidade da vida.

E me encanta a ideia de não saber como tudo isso vai acabar.

Um grande abraço a todos,

Andejo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Nas Montanhas de Bolson


Olá a todos.

Este relato é a descrição de um trekking que fiz nas montanhas pertencentes à Cordilheira dos Andes, nos limites da cidade de El Bolson, na Patagônia Argentina. É bastante longo, mas tenham certeza de que ocultei vários detalhes importantes e para mim inesquecíveis para tentar deixar este relato um pouco mais conciso. Também está editado de um modo diferente, com fotos e vídeos que exemplificam a história. Sugiro que leiam com tempo.

Um Abraço,
Andejo.
***

Terça-Feira. Trajeto decidido. Clube de Montanha avisado. Previsão do tempo: Céu azul até sábado. Mochila pronta, deixarei mais da metade de minhas coisas no camping, impossível subir com toda a mochila. Enfim meu primeiro verdadeiro trekking. A partir de amanhã passarei 3 dias nas montanhas de El Bolson, caminhando sozinho pela Cordilheira dos Andes.  Pego os mapas e estudo um pouco melhor o caminho antes de ir dormir. Deixo tudo bem empacotado e torço para que estejam da mesma forma quando eu voltar. Tudo pronto, acho que já posso ir dormir, novamente em cima da mesa, com meu saco de dormir. Desejo boa noite ao céu estrelado.

Acordo com um barulhinho gostoso. O que pode ser? Chuva, que droga. São 4 da manhã, ainda está escuro, então volto a dormir. Agora são 8 horas da manhã, segue noite, segue chovendo. Por isso acordava todos os dias tão tarde no hostel em Bariloche, aqui o dia não amanhece antes das oito, ainda bem que já passei da minha época de escola. Planos cancelados. Não vou subir por trilhas desconhecidas com chuva e frio, muito frio. Vou esperar até meio dia, horário limite para começar a subida de 6 horas até o refúgio Hielo Azul. Nada feito, a chuva continua. Deixo pra amanhã ou cancelo a subida?Caramba, seis da tarde e o céu começa a limpar. Sim ou não? Sim, e agora.

Agarrei minha mochila e comecei a andar, vou acampar ao pé da trilha para poupar tempo amanhã, quero começar a subir antes de amanhecer. Caminhei e caminhei, ruas de terra e subidas implacáveis e as primeiras paisagens começaram a aparecer, como a árvore amarela que se destaca sobre o rosa das nuvens iluminadas pelo sol ao entardecer ou leito do rio Azul visto pela primeira vez em todo seu explendor.

Álamo

Uma das diversas faces do Rio Azul
Noite. Sigo caminhando sem nenhuma visibilidade. Noite sem lua, a lanterna é necessária. Enfim chego ao camping que buscava, sabia que estava fechado, mas tinha esperança de poder cruzar por dentro dele para não me perder no bosque durante a noite, e recebi um belo não como resposta. Após pedir, argumentar e quase implorar, achei o argumento correto, 12 pesos.  Depois de oferecer propina ao responsável pelo camping ele me deixou cruzá-lo, dando-me instruções claras para não dormir dentro da propriedade já que era proibido.  Mas eu paguei, não? Com uma névoa bastante fechada, que refletia a luz da lanterna e não me deixava ver a mais de 3 metros, decidi acampar essa noite abaixo do telhado do prédio da administração. Cozinhei um delicioso arroz com atum e me preparei para dormir. O trekking já começou.

Novamente oito da manhã, novamente escuro. Preocupo-me, afinal não vejo as estrelas. Frio cortante, minhas mão doem, muito. Tenho até certa dificuldade de desarmar a barraca por isso. Quando termino tudo, o dia amanhece e descubro que minha preocupação procedia, o dia estava completamente nublado. Entretanto havia caminhado duas horas e meia até ali e não estava disposto a voltar atrás. Caminhei por uma trilha rápida até uma ponte que tentava me convencer a não seguir a diante, não conseguiu, às oito e meia da manhã comecei a trilha.

Lembro-me do meu “primeiro” dia de viagem, quando subi o Monte Olimpo, no parque Marumbi. Parece que a subida será semelhante. Poucos passos depois percebi que por mais que não estivesse chovendo, a trilha estava muito molhada e escorregadia. Quebrei um galho para usar como bastão de caminhada. Desliguei o celular para economizar bateria e segui caminhando e depois de uma curta, mas difícil, subida cheguei a uma parte plana e aí sentei para guardar todo o equipamento de frio que tinha tirado depois de aquecer o corpo - que alívio por minhas mãos não estarem mais congelando. Infelizmente a parte plana não durou muito e comecei novamente a subir, dessa vez por mais tempo, mas com uma inclinação menor. Caminhei por muito tempo e tive uma incrível surpresa quando comecei a ver o céu. Eu estava dentro das nuvens. Subi um pouco mais e quando já tinha ultrapassado as nuvens e tinha somente um céu azul sobre mim, parei para comer, feliz de não ter desistido quando vi o tempo fechado. Devo estar próximo do destino. Quando ligo o celular, a surpresa: apenas duas horas. Então, de acordo o cara do clube de montanha, ainda tenho quatro horas de caminhada pela frente, que desanimo!

Sigo subindo e logo encontro outra surpresa, a água empoçada no chão estava congelada, melhor eu não molhar os pés! Encontro um riacho e lavo o rosto e a água estupidamente fria que fazia seu caminho morro abaixo e isso renovou meu espírito e contente segui morro acima até encontrar o Mallín de Palos.  Nada mais era que um riacho pantanoso com cerca de 20 centímetros de profundidade, entre barro e água, que eu teria que atravessar para continuar. O fato é que a água estava congelada e o caminho a seguir era caminhando por troncos cobertos de gelo e extremamente escorregadios. Apoiando-me em meus bastões de caminhada segui cuidadosamente e feliz encontrei uma placa avisando que o refúgio estava a 2 horas e meia dali, ou seja, na realidade me faltava muito menos que as 4 horas que estava imaginando!

Bosque Andino coberto de gelo

Rio congelado
A paisagem já estava mudando e o denso bosque dava lugar a uma floresta de árvores grossas e altas. Riachos em grande quantidade exigiam que eu saltasse todo o tempo por pedras para não molhar os pés, o que seria muito incômodo levando em consideração a temperatura da água e do dia. O caminho estava relativamente bem sinalizado até chegar a três grandes árvores caídas onde nenhum caminho era aparente, e para ajudar não via a sinalização que deveria estar ali em algum lugar. Após muito procurar, encontrei a continuidade da trilha, e após segui-la por mais alguns minutos, novamente a paisagem começou mudar. Um bosque congelado de árvores sem folhas estava ao outro lado do pequeno riacho e ao caminhar por pouco tempo com esse bosque à minha direita, visualizei a atrativa casa de madeira que soltava fumaça pela chaminé. Cheguei ao refúgio Hielo Azul após 4 horas e 20 minutos e com um dia lindo e ensolarado preparei meu primeiro almoço a montanha e comi um delicioso arroz com atum (sim, de novo).

Refúgio Hielo-Azul
Conversei com Luciano, o Refugiero, e me explicou que eu teria uma caminhada de 3 horas, ida e volta, até o pequeno glaciarHielo Azul, que fica a 1700 metros de altitude, 400 a mais que o refúgio de mesmo nome, e sem demorar, continuei a caminhar. Subida muito difícil, ao menos para mim. O chão era composto somente por pedras soltas, ora grandes, ora quase como terra, transformando o terreno em armadilhas naturais que tentam te fazer escorregar e torcer o tornozelo, sem contar a inclinação que me fazia sentir a sensação que não poderia subir sem escorregar até lá embaixo novamente.

Pés enterrados na neve, pela primeira vez.
E, finalmente, neve. Meu primeiro contato com o desconhecido estado da água foi primeiro com pequenas porções que conforme eu subia aumentavam gradativamente até que afundava meu pé até quase a altura do joelho. A inexperiência com a neve me fez escolher caminhos bastante difíceis para desviá-la que me levaram a perigosas rochas cobertas de gelo que tive que escalar para chegar ao glaciar, mas a primeira visão valeu a pena.  O lago de um azul esverdeado formado pelo glaciar de gelo azul formava uma piscina perfeitamente localizada dentro de um poço na montanha nevada. 

Glaciar Hielo-Azul e lago formado pelo degelo.
Não pude escapar, para chegar à margem tive que passar por grandes trechos de neve, e o medo do desconhecido passou rapidamente a fascínio e desci esquiando com minhas botas pela neve endurecida. Depois de novamente lavar o rosto com a água congelante subi correndo,temendo que inesperadamente meu pé afundasse vários centímetros e acabasse me machucando, mas felizmente isso não aconteceu. Agora, como um expert em neve, desci escorregando por todo o caminho, o que facilitou, e muito, minha volta ao refúgio.

Acampar, 15 pesos, sem direito a banho, ou usar o aconchegante refúgio. Dormir em uma cama no refúgio com direito a banho quente e desfrutar de todas as comodidades que isso incluía – usar a cozinha e a parte interna do refúgio constantemente aquecida – 50 pesos. A diferença não era muita e com muita dor no coração escolhi... Acampar. Estou em constante contenção de despesas, especialmente depois do tanto que gastei em Bariloche! Negociei e consegui dormir no quincho por 20 pesos – não sei uma palavra equivalente em português, mas seria o equivalente a churrasqueira, ou uma área externa coberta destinada ao lazer. Neste caso, área coberta e fechada. Tentei sem sucesso acender a lareira, as madeiras que encontrei estavam completamente molhadas, e sem algo pra começar um fogo que fosse suficiente para secá-las, tive que torcer para que todas minhas roupas somadas ao saco de dormir fossem suficientes para passar a noite.

Indicadores de trilha

Foram, e no outro dia continuei a trilha que terminaria em outro refúgio chamado Cajón Azul. Passei novamente pelo bosque de árvores secas congeladas e logo de cara encontrei um obstáculo digno de ser comentado: uma ponte congelada sobre um rio profundo o suficiente para não poder atravessá-lo. Essa ponte nada mais era que um tronco com um corrimão feito de troncos finos, seguido de dois pedaços de madeira sem corrimão algum. Temeroso, provei o tronco para ver quão escorregadio estava e verifiquei que seria difícil ficar de pé nele. Subi e desci pela margem do rio buscando algum outro ponto de travessia e descobri que as poucas pedras que permitiriam a travessia estavam também congeladas e ainda mais perigosas que o tronco. Sem escolha para seguir segurei firme com as mãos sem luvas o corrimão coberto de gelo e vagarosamente cruzei o rio. Ainda na metade do tronco minhas mãos doíam com o frio, mas em nenhum instante me atrevi a soltar minha única esperança de permanecer em pé.

Ponte congelada

Zoom do Corrimão
Superado outro desafio, seguiu-se uma trilha bastante íngreme e escorregadia, entretanto curta e rápida que me levou a um refúgio intermediário chamado Natación. Essa trilha, por mais que curta, esconde lindas paisagens como bosques, lagos e campos verdejantes que pareciam tão cuidados quanto campos de futebol. Entretanto nenhuma dessas paisagens é comparável à do refúgio às margens do lago de mesmo nome e foi aí que tive o prazer de cozinhar meu simples almoço.Inesquecível, assim como indescritível.

Cozinhando em completa paz.

Lago Natación
Não havia alcançado ainda meu objetivo nesse dia e depois de desfrutar macarrão com sopa “Quick”, segui o mapa que descrevia o próximo trecho como “Bajada Pronunciada”. Nunca senti tanto medo em minha vida.  O caminho não era tão bem sinalizado quanto antes, e a todo o momento tinha a impressão de estar perdido. A trilha cada vez mais fechada e com espinhos raspava meus braços, pernas e mochila até que cheguei até a parte mais difícil. O caminho era estreito, muito íngreme e escorregadio – o degelo da montanha transformou a trilha em um pequeno riacho. Grandes pedras cobertas de gelo e água que descia montanha a baixo tinham que ser escaladas e o fato de estar sozinho com uma mochila de aproximadamente 15 quilos complicava ainda mais a situação. Por diversos momentos rezei ao acaso para que a trilha não se complicasse ainda mais, porque não sabia se seria capaz de voltar pelo mesmo, e único, caminho. Por outros, duvidava que estivesse no caminho certo não acreditando na dificuldade deste trecho. Para ajudar, torci levemente o joelho direito e a dor que incomodava, dificultava ainda mais as coisas. Devagar e seriamente temendo por minha vida – um escorregão poderia ser fatal visto que seria uma queda bastante grande, e caso não fosse, dificilmente seria encontrado, visto que estava só e ninguém saberia a localização exata de meu desaparecimento –superei esse trecho agarrado à baixa e densa vegetação dessa parte das montanhas, muitas vezes compostas por plantas cheias de espinhos. Aliviado e cheio de adrenalina, logo após completar esse trecho e o caminho voltar a ser um pouco mais simples, sentei-me por cerca de quinze minutos esperando o coração voltar a bater em seu ritmo natural. A razão e a emoção brigavam entre si com uma mistura de incredulidade e felicidade por haver realizado tal façanha, que pode ser ridiculamente fácil para alguns, e pensava até que ponto nós corremos riscos em busca de superar nossos limites.

Acreditando que havia sido demasiado lento apertei o passo no resto da caminhada até Cajón Azul. Cansado, em certo momento me desequilibrei com o peso da mochila e tive que me jogar no chão para não cair de outro lugar com desnível considerável. Mas, para minha surpresa fiz o caminho em 2 horas e 20 minutos, tempo menor que o previsto que variava entre 3 e 4 horas, em que passei por lindas paisagens, entre elas as águas claras do rio Azul.

Rio Azul entre as pedras.
Esse refúgio era impressionante e tinha uma estrutura bastante completa. Seu dono vivia ali com a família há 30 anos e com muito trabalho construiu uma fazenda no meio das montanhas, completamente isolado da civilização. Fui muito bem recebido, entretanto decidi novamente dormir no quincho para economizar mais alguns pesos – o problema era que esse era aberto. Felizmente dessa vez fui capaz de fazer fogo que durou toda a noite e me aqueceu de forma intensa e contínua. Nesse lugar creio que tive a mais linda visão do céu. A noite escura e sem lua, sem uma nuvem ou neblina somada à falta de luz da fazenda sem eletricidade, fazia com que o céu ficasse congestionado, e quase podia perceber as estrelas se empurrando em busca de espaço. E escutando apenas o crepitar do fogo que me iluminava e me fazia superar a temperatura de aproximadamente 6° negativos, dormi completamente fechado em meu saco de dormir.

O mais difícil já havia passado e meu último dia nas montanhas foi tranquilo. Mesmo sentindo um pouco meu joelho fiz uma curta trilha até o nascimento do Cajón, que era um local onde o plano e raso rio de cerca de 30 metros de largura passava todo por um espaço de um metro e meio e com força esculpiu as rochas formando em seu caminho dois paredões de 40 metros de altura.

Antes de começar o caminho de volta fui presenteado com um pão com linguiça e depois do almoço, comecei a volta a El Bolson. Cantarolava feliz “eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou, pararatibum, pararatibum” e caminhava rápido e despreocupado. As trilhas não eram difíceis e ainda passei em dois refúgios pelo caminho, La Tronconada e La Playita, ambos muito lindos e em perfeita harmonia com a natureza. 

Mais uma das perigosas pontes.
Após cruzar mais quatro pontes suspensas, todas em péssimo estado, escorregadias e balançando muito, cheguei a última e longa subida até o povoado de MallínAhogado, a 13 km de El Bolson. Decidi não esperar o ônibus, voltei caminhando torcendo para conseguir uma carona, e assim aconteceu. Uma mulher, com suas duas filhas, me levou em sua caminhonete até a pequena cidade, que sem dúvida ficará marcada para sempre em minhas lembranças, como palco de uma aventura de superação contínua, reflexão, descobertas e interação com a natureza.

Um grande abraço a todos e até o Fim do Mundo.

Andejo.